CEPRID

Revolução ou processo na Venezuela? A dialética do chavismo no sistema-mundo (y III)

domingo 7 de Julho de 2013 por CEPRID

Jon E. Illescas Martínez

Tradução: Fabiana Oliveira

7. Uma impostura “socialista” chamada PSUV

O Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) deve ser, certamente, um dos partidos de esquerda mais antidemocráticos e caudilhistas existentes no mundo. Seus estatutos, aprovados com os mesmos métodos, são expressão da lógica chavista do “dedaço” e da obediência cega do militarismo que procede do próprio estilo de Chávez e de seus companheiros ex-militares desde os tempos do MBR-200. Sem embargo, este personalismo não provém de Chávez, exclusivamente, mas que, para surpresa do analista não venezuelano, foi demandado por muitos seguidores/militantes que não se confiam na maioria dos pesos pesados do chavismo, mas sim confiam em Chávez. É tal o grau de personalismo ao que chega o PSUV que, no artigo 3, relativo a valores e princípios, diz que “tudo está inspirado na liderança fundamental e ideias revolucionárias do Comandante Hugo Chávez”. No artigo 9.1, em relação aos deveres do militante se inclui a defesa do “seu líder”, quando afirma: “Defender a Pátria, a Revolução e seu líder e o PSUV”. Então o que ocorre se o seu líder se corrompe ou toma um caminho contrário à vontade da maioria da organização? Seu líder é infalível, como Deus? E se fica louco?

Por outra parte, a pesar de Chávez e, por extensão, o PSUV, não assumirem ao marxismo, nem muito menos ao marxismo-leninismo55, acolhem aquilo que lhes interessa como o “centralismo democrático”, quando falam dos princípios organizativos, talvez porque isso garante “... a subordinação do conjunto da organização à direção; a subordinação de todos os militantes a seus organismos; a subordinação dos organismos inferiores aos superiores; a subordinação da minoria à maioria...”. No artigo 9.4, fala-se diretamente de “Acatar e cumprir os alinhamentos e instruções, emanadas das distintas instâncias de direção do partido.” Demasiadas subordinações e acatamentos para tão poucas garantias de que se cumpre o princípio do centralismo democrático leninista, aquele que garante que a informação, e os mandatos, emanam também de baixo para cima e não somente de acima para baixo, como ocorre no Exército. Ademais, os militantes só podem estabelecer críticas dentro da organização do partido56, ou seja, que dependem da burocracia do partido para exercitar seu direito a crítica. Quando muitas vezes as críticas têm a ver com a burocracia e esta controla quase a totalidade dos meios de comunicação chavistas, quem vigilará ao vigilante? Especialmente insultante para todo socialista e, por extensão, democrata radical, resulta o artigo 5, “Métodos da democracia interna”, onde dizem que:

“Para a tomada de decisões e eleições internas, o partido poderá utilizar diversos métodos: eleição direta, universal e secreta; cooptação, eleições de primeiro, segundo ou terceiro grau; opinião e consenso, os quais se determinaram pelas diversas instancias de direção de acordo com as condições políticas.”57

Ou seja, a direção fará o que seja a sua vontade, em poucas palavras. O mais alucinante do caso não é que se o faça, coisa que ocorre com distintas intensidades em muitos partidos de esquerda do mundo (desgraçadamente, e seguindo a mesma mecânica que os de direita), mas que se tenha o descaramento absoluto de reconhecê-lo e de lhe dar categoria estatutária. Isto sim não é comum.

O PSUV é um partido de massas sem ideologia revolucionária, e, para que um possa integrá-lo, só é necessário filiar-se e pagar a mensalidade, motivo pelo qual rapidamente se encheu de gente que não acreditavam no processo e, inclusive, votavam pela oposição, quando o que queriam era estar presentes nas instituições do Estado. Ou seja, como aquele oportunista que faz carreira em uma empresa privada “puxando o saco” dos chefes. Pois aqui, em una pública chamada Estado venezuelano, ocorre o mesmo. Este nulo nível de exigência para ser militante explica os milhões de filiados desta organização. A possibilidade de exercer o despotismo58 por parte de Chávez dentro do partido, como se fosse sua fazenda particular, se pode ver claramente (para o caso de que já não havia ficado claro) no artigo 24, relativo à organização regional: “o Presidente ou Presidenta do Partido [Chávez] poderá estabelecer uma estrutura regional que tenha como autoridade um Vice-presidente ou Vice-presidenta regional ou setorial, da sua livre nomeação e remoção59”. Isto tem algo a ver com a democracia? O capítulo 26 segue com a mesma tônica de ditadura presidencialista dentro do PSUV quando declara que:

“A Direção Política Nacional será coordenada por uma ou um Primeiro Vice-presidente ou Primeira Vice-presidenta, designado ou designada pelo Presidente ou Presidenta do partido; estará integrada por: um número de membros compreendido entre quinze (15) e trinta (30) militantes,selecionados de acordo com os métodos que estabelece o artigo 5 destes estatutos, que durarão três (3) anos no exercício de suas funções, e pelos Vice-presidentes ou as Vice-presidentas regionais que serão de livre nomeação e remoção do Presidente ou Presidenta do partido.60”

Ou seja, selecionados, como disse o artigo 5, que, como vimos anteriormente, considera qualquer método válido, inclusive a cooptação. Assim, voltamos ao mesmo ponto: uma vez nomeados os membros da Direção Política Nacional pelo Vice-presidente, o Presidente fará o deixará de fazer o que quiser. Nada mais e nada menos. Mas o despotismo do Presidente, no PSUV, fica definitivamente claro no artigo 30:

“O Presidente ou a Presidenta do PSUV constitui a máxima autoridade executiva e administrativa do partido; é designado ou designada pelo Congresso Socialista e tem as funções máximas de direção e controle.”

O Presidente do PSUV, ou seja, Chávez, e quem mais seja (ou ele designe) seu sucessor, será a máxima autoridade do partido e será designado pelo Congresso Socialista, mas nenhum documento diz como ele será escolhido, apenas que será convocado pela Direção Política Nacional (eleita por Chávez, se ele o desejar) e pelo Presidente (Chávez de novo). Muitos “Chávez” na mesma frase, não? Um círculo perfeito que começa com Chávez e acaba com Chávez. Estatutariamente, não há ninguém que possa estar em um posto de direção se não é do agrado de Chávez. O que tem a ver este tipo de democracia com a instaurada pela Comuna de Paris de 1871 e apoiada como a indicada para um governo obreiro revolucionário por Marx, Engels e Lenin? O que tem a ver esta organização onde Chávez tem um poder absoluto com aquela democracia que garante que todos os membros sejam revogáveis em qualquer momento pela maioria da base?

Estas carências democráticas do PSUV dão razão aos militantes do PCV que votaram contra a sua dissolução para integrar-se ao PSUV. Mesmo assim, outro partido de militantes formada antes da eclosão do chavismo como o Movimento Revolucionário Tupamaro, decidiram depois por integrar-se como corrente, sair do PSUV e voltar a funcionar como partido político independente. E tudo isto apesar de que tanto o PCV como o Tupamaro apoiam a Chávez no governo.

8. Chavismo, boas ou más noticias para o Socialismo?

Na mina opinião, o processo chavista teve questões positivas: ofereceu resistência às políticas neoliberais que marcavam aqueles anos desastrosos para a América Latina, mas também para os “Estados de Bem-estar” europeus. Foi um ponto da alternativa difusa mundial contra esse neoliberalismo triunfante e, desde 2005, trouxe novamente para a agenda o debate sobre se era mais conveniente o capitalismo ou o socialismo para guiar as vidas dos povos, em um momento em que o capitalismo se assimilava (interessadamente) com noções burguesas, como “livre mercado” ou outras populares, como “democracia”61 . Mas reproduzirei algumas palavras do atual presidente do Uruguai, “Pepe” Mujica, tupamaro e ex-guerrilheiro durante os tempos da ditadura, que em uma entrevista afirmou: “Quando passe Chávez, haverá um montão de milhões de venezuelanos que viviam na miséria e que estarão vivendo um pouco melhor, que vão ter uma casa melhor, que vão ter serviços de saúde; agora, não terão construído nenhum socialismo.”62 Para construir o socialismo mundial, o mesmo que propuseram autores como Chase-Dunn (2006), desde a perspectiva crítica do sistema-mundo influenciada por Wallerstein ou Arrighi, mas antes ainda por Marx e Engels, não basta colocar remendos em uma parte do barco capitalista por onde entra a água, se fazê-lo significará que, mediante a lei do valor63 descuidaremos outras partes que serão perfuradas pelo capital sedento por mais-valia. Este grande barco no que todos viajamos, queiramos ou não, se chama humanidade. Não se podem salvar uma parte se o custo é a exploração de outras. É como os Estados de Bem-estar europeus de 1945 a 1973, os quais se baseavam na exploração imperialista de outras partes do mundo, como África e América Latina. O “Estado de Bem-estar bolivariano” está se sustentando na mais-valia gerada por trabalhadores de outras partes do mundo, que são absorvidas pela renda petroleira no mercado internacional. O problema deste barco global, artificialmente separado por fronteiras e aduanas, é que ainda não nos atrevemos a colocar nele uma bandeira que represente à raça humana e utilizamos aquelas que nos dividem, servindo à elite burguesa transnacional. Seguimos aceitando a falsidade do seu discurso e jogamos com as suas regras, que distorcem nossos propósitos. Descuidando o internacionalismo assalariado, acabamos nos conformando com um regionalismo esquerdista de curto prazo que vemos mais “possível” que a luta pela conquista do socialismo e pela democracia mundial. Lutando pelo bem-estar “nacional”, com a Lei do Valor como meio, dentro do modo de produção capitalista internacional, o único que faremos será varrer a sujeira e inundar outra parte do barco, mas não jogá-la no lixo. Dá-nos medo enfrentar os nossos próprios sonhos porque estamos intoxicados com os que nos vende a hegemonia burguesa, os quais seguem nos produzindo pesadelos. Nós nos conformamos porque ainda estamos aturdidos com o fim do “socialismo real” e as vitórias do capitalismo. Fazemos de Chávez uma figura de importância na esquerda porque já se sabe que “no mundo dos cegos, quem tem um olho é rei”. Ainda que Chávez seja um homem muito inteligente, grande estadista e excelente orador, não tem e nem se baseia em uma teoria, nem sequer em um caminho minimamente coerente ou exposto, de construção socialista. Ninguém sabe o que é o “socialismo do século XXI” ou o “socialismo bolivariano”. Dá-nos a impressão de que depende de uma opção pelos pobres sujeita à correlação de forças internas, ao improviso e a uma mescla entre pragmatismo e oportunismo na política exterior. O triunfo de Chávez, na esquerda, com o seu discurso salpicado de verborreia revolucionária, algumas vezes exaltado e populista, outras reflexivo e conciliador, é o espelho das nossas limitações. Chávez não é o apaixonado e internacionalista revolucionário que foi Che, nem a mescla entre teórico e lúcido comunista, que foi Lenin, mas tampouco tem a grandeza tática de Mao e nem a humildade de um revolucionário derrubado ainda cedo, como Allende ou Martí.

Chávez é um homem muito inteligente, que fala com a linguagem do povo e o emociona como quase ninguém antes na história da Venezuela, fruto da sua inegável sensibilidade. Tem sido o querido professor político de muitos venezuelanos que, antes da sua aparição, passavam olimpicamente pela política e, deste modo, eram ignorados por aquela. Mas, a pesar de ter sido um bom professor, também tem defeitos importantes que tem marcado os seus “alunos”, como o seu excessivo gosto pelo poder (e pelos holofotes) que não tem permitido consolidar nem dar a conhecer outros referentes revolucionários. Conquistou muito para alguns venezuelanos, bastante para um número importante, mas pouco para garantir que, depois da sua presidência, as mudanças permaneçam. A esquerda mundial e a revolucionária venezuelana nos conformamos com Chávez porque não temos outra coisa. E já é hora de construí-la. Mas demoramos porque é mais fácil acreditar em miragens que buscar a saída quando estamos no deserto. O problema é que, muitas vezes, o caminho que parece mais curto é o que menos frutos oferece. Queremos lutar pelos nossos projetos de esquerda a partir destas granjas chamadas Estados, onde as burguesias nos cevam para comer-nos melhor. Estes Estados onde nem existe soberania nacional e nem nada parecido à democracia. Enorme granjas cercadas onde os capitalistas aproveitam seu tabuleiro mundial bem segmentado para explorar-nos “nacionalmente”.

Chamar-se a sí mesmo de “chavista” e “revolucionário” não é mais que una desculpa. Inibe ao que reclame o esforço de pensar como construir essa outra sociedade que queremos, que substitua a barbárie do capitalismo. Ser chavista e acreditar no socialismo é um bordão que nos sujeita a um sujeito carismático a nossa esperança perfurada pela falta de fé no programa socialista.

O chavismo tem servido para que muitos venezuelanos vivam melhor, tenham melhor educação e saúde; mas também para que sigam condenados ao consumismo capitalista e comprem televisores, carros e Blackberrys, que engordam os ganhos da burguesia em centros comerciais, como o Sambil caraquenho. O chavismo também tem contribuído para que outros trabalhadores do mundo se empobreçam, graças à lei do valor que rege todo o sistema-mundo capitalista64. O capitalismo mundial é um jogo de soma zero e o chavismo de hoje não serve para sair dele, como tampouco servia a teoria do “socialismo em um só país”, seguida no século XX pela ortodoxia dos partidos comunistas. Para isto, deveríamos superar o estado inferior de politização das massas que representam o “chavismo” e aproximar a maioria dos povos da Terra ao “socialismo”, onde se poderá destruir a base capitalista da sociedade. O chavismo poderia ser, voltando a Gramsci e sua teoria do cesarismo, um degrau para alcançar o socialismo, mas, em todo caso, um degrau inferior de uma longa escada, que deveria internacionalizar-se. O socialismo em um só país é impossível, como advertiram Marx, Engels, Lenin, Trotsky. Isto se demostrou tanto no século XX, como no atual século XXI65.

Depois de anos em que as Indústrias Culturais burguesas conseguiram estender seus dogmas políticos entre os assalariados de todo o mundo e, por suposto, também entre os trabalhadores venezuelanos66, a debilidade da esquerda venezuelana, pode ser vista por dois lados: um, a incapacidade dos setores da esquerda chavista em aprofundar um processo que só é revolucionário nos discursos, reformista em muitas das suas políticas, e, não em poucas vezes, anti-trabalhista e, inclusive, social-liberal em outras; e, por outro, pela incapacidade da esquerda “revolucionaria” em superar um apoio que lhe condena facilmente a uma imagem de seita entre os trabalhadores mais conscientes. O partido PSL (Partido do Socialismo e Liberdade), dirigido pelo sindicalista Orlando Chirinos, de tendência trotskista, obteve, nas eleições presidenciais de 2012, pouco mais de 4.000 votos. Uma cifra tão ridícula em um país com quase 30 milhões de habitantes que fala por sí mesma. Outros trotskistas têm problemas similares, que os impedem de perder a imagem de seita minoritária “ista-ista”. Para uma grande parte dos trabalhadores venezuelanos, Chávez continua sendo seu referente graças ao capital simbólico obtido pelos seus enfrentamentos com a burguesia e por seu discurso anti-imperialista e socialista (em declive). Mas outra parte significativa dos trabalhadores venezuelanos perderam a fé na “Revolução Bolivariana” e voltaram à ideologia do “salve-se quem puder”, enquanto que alguns outros acreditaram em Capriles. Este candidato da direita clássica se apresentou, em alguns lugares, disfarçado com um discurso socialdemocrata, através do qual parecia que iria respeitar certas conquistas que se produziram com Chávez, referentes à saúde ou à educação. O que é bastante lógico, pois se, de algum modo poderíamos dizer que o discurso de Chávez é vagamente revolucionário e que sua praxis é socialdemocrata em recesso, lógico é que a superestrutura comunicacional da MUD de Capriles teve que ser vagamente socialdemocrata para disputar a hegemonia ideológica com o chavismo, para logo aplicar, já no governo, una lógica neoliberal com contenções, em um hipotético cenário pós-Chávez.

Por tanto, na Venezuela temos um governo nacionalista e socialdemocrata em possível decomposição, que realizou importantes avanços para o povo venezuelano nos anos passados, mas que não estão consolidados institucionalmente, pois dependem excessivamente da adesão popular à figura de Hugo Chávez. O venezuelano dirige um governo crescentemente infectado de elementos pró-burgueses, onde os revolucionários que têm direito a existir devem faze-lo depois de domesticar seus discursos e, em todo caso, jurando fidelidade à Chávez como líder supremo, praticamente infalível. Se este não fosse respeitado, ou alguém atacaria abertamente aos afilhados de Chávez, como Diosdado Cabello, e rapidamente seriam fulminados, como ocorreu com o falecido deputado Luis Tascón, que, por denunciar um caso de suposta corrupção de Cabello e de seu irmão (então encarregado do SENIAT), foi expulso do PSUV pelo próprio Chávez.

9. Palavras finais

Enquanto escrevo estas linhas, a princípios do mês de dezembro de 2012, Hugo Chávez tornou público que o tumor cancerígeno do qual foi operado em junho de 2011 voltou a se reproduzir. Devido a isto, deverá permanecer em Cuba para retomar o tratamento. Diante da possibilidade de não poder cumprir com as funções que requerem o cargo de presidente da Venezuela, para o qual foi recentemente eleito, Chávez tornou público que designaria como sucessor a Nicolás Maduro, atual vice-presidente e ministro de Relações Exteriores. Pediu aos seus seguidores que o nomearam como candidato do PSUV, em caso de que tenha que enfrentar novas eleições. Ignorando o nível nulo de democratismo que implica esta forma de designar aos máximos representantes políticos, utilizando o “dedaço”, próprio dos regimes e das organizações verticalistas, abre um novo processo dentro do chavismo. Teremos que esperar para ver se uma figura anódina, como Maduro, é capaz de manter a química chavista com as massas e se é, por tanto, capaz de conservar uma liderança clara, como a que tem Chávez. Parece que Maduro teria dificuldades para ganhar em novas eleições presidenciais diante de um candidato como Capriles Radonsky, que diminuiu a diferença com Chávez e consolidou sua liderança na oposição ao voltar a vencer como governador do importante Estado de Miranda67. Ademais, é preciso ver o que sucederá com Diosdado Cabello, poderoso homem do partido, que desperta pouca simpatia entre as bases chavistas. O fato de que não haja nenhum líder brilhante que possa suceder a Chávez é sintomático de que este colaborou para que se formara um culto à sua personalidade que impediu o conhecimento midiático de outros líderes, surgidos desde a base. Mais ainda, os líderes queridos pelas bases, muitas vezes foram separados do poder, como ocorreu com o socialista Eduardo Samán, então Ministro de Comércio. Enfrentando à burguesia e, ademais, à parte do chavismo socialdemocrata. Samán, apreciado pelas bases, é um homem, ao menos em seu discurso, da ala esquerda chavista com consciência de classe. No entanto, toda a direita e o centro do chavismo tentou, por todos os meios, fazê-lo calar e tirar-lhe a presença midiática. É notório que esta patrulha socialdemocrata tem sido a que sempre esteve nos círculos mais altos de poder com Chávez desde o princípio da sua candidatura bolivariana, em 1998, quando ele se definia como “nem de direita e nem de esquerda”. Como explicar que, com a “conversão” do líder ao socialismo em 2005, todos, ou a grande maioria de sua patrulha socialdemocrata, tenha se convertido também a socialismo anticapitalista? Milagre coletivo ou arrivismo próprio do “mandarinismo”68 venezuelano? Parece lógico pensar que ou não ocorreu tal conversão por parte da dirigencia do bloco e somente o fizeram para manter-se no posto. Ou, talvez, pior ainda, nem sequer a conversão de Chávez ocorreu com profundidade e consequência. Pode ser que, simplesmente, se trate de uma estratégia para manter-se no poder em um momento em que as massas estavam em um estado quase revolucionário69, devido à violência das elites, para assumir as reformas socialdemocratas do governo bolivariano.

Finalizando, poderíamos dizer que, na Venezuela, há ainda um processo aberto, onde existem alguns revolucionários sinceros nas estruturas de poder, mas onde não há nenhuma revolução em marcha, porque os revolucionários estão distantes de ter a hegemonia dentro do epicentro do poder chavista, e a revolução leva 13 anos, postergando-se, ainda que tenha havido momentos onde pudemos ver a “a cabeça”, como um bebê que não termina de nascer depois de um parto interminável, agônico, que já cobrou centenas de vítimas70. O que é chamado de “hiperliderança”71 de Chávez por alguns dos seus apoiadores, em todo caso um eufemismo, para não dizer caciquismo72, autoritarismo, etc., está bloqueando a possibilidade de que os revolucionários chavistas logrem a hegemonia e, por tanto, se ative a revolução. Mas Chávez, que deixa que o estimem, e sua corte, por interesses palacianos, seguem alimentando o monstro do culto à sua personalidade (demandado e reproduzido nas redes sociais por milhões de sus seguidores com menor formação), o que cada vez torna mais difíceis as críticas dos revolucionários dentro do processo. Na Venezuela, pareceria que, antes de fazer uma crítica ao governo, se faz necessário dar golpes ao peito e jurar fidelidade ao “grande líder”, para não parecer desafeto, que era o mesmo que faziam os vassalos com os senhores feudais na Idade Media. A questão é que estamos no século XXI e, assim como a classe trabalhadora mundial escolhe entre voltar a níveis de exploração capitalista semelhantes aos do século XIX, mas com iPhones e Internet de alta velocidade, os revolucionários venezuelanos terão que dirimir se podem fazer uma revolução no século XXI com organizações próprias do século XI (PSUV, instituições do Estado, etc.).

O problema definitivo surge com a seguinte hipótese: o que ocorreria se o problema radicara em que a direita clássica não fosse a que sequestrou o processo de transformação, mas sim esta direita burocrática e autoritária, que incluiria ao próprio Chávez? Como iriam vencer ao “líder-Deus”73 que ajudaram a criar, propiciando uma verdadeira revolução sem parecer “contra-revolucionários” aos olhos das massas inundadas pela propaganda chavista? Como iriam fazê-lo se todos os meios de comunicação do Estado estão a favor do culto à Chávez, como se fosse uma santidade? Talvez se Chávez tivesse a desgraça de se ver obrigado a deixar o cargo devido a sua doença e Maduro ou algum outro homem do centro do aparato do PSUV tivesse que ocupar a Presidência, então as contradições saltariam por toda parte e a luta de classes entre revolucionários e boliburguesia seria mais direta, começando “a rodar cabeças”. O lamentável de tudo isto é estaríamos pedindo muito se esperamos que não sejam as cabeças da esquerda revolucionária dentro do chavismo as que sairão rolando das instituições governamentais, se decidem “quebrar os ovos” para fazer a tortilha da revolução. Atualmente, a esquerda revolucionária venezuelana (dentro do chavismo e fora dele) é tão pequena em relação ao poder carismático do Chávez ampliado pelos alto-falantes dos meios oficialistas que, junto ao poder legal da direita chavista, nos parece complicada sua futura vitória frente às tendências burocráticas e socialdemocratas do processo. Mais provável parece que, em um cenário pós-Chávez, se reforce um chavismo sem Chávez tendente ao social-liberalismo ou um neoliberalismo franco com Capriles Radonsky, que uma saída socialista revolucionária. Inclusive é possível uma aproximação da direita chavista à direita clássica de Rodonsky, como ocorreu a partir de que os sandinistas perderam as eleições de 1990, na Nicarágua, frente à direita representada por Violeta Barrios. Só o tempo dirá se os revolucionários dentro do processo bolivariano serão suficientes, audazes o bastante e suficientemente valentes para levar a cabo uma tática que lhes permita mobilizar a um povo muito desigualmente formado, depois de décadas de patrimonialismo e desigualdade, para aprofundar uma revolução que não ainda não nasceu e que deverão fazê-la sem Chávez e, inclusive, contra ele mesmo. Uma terceira e última possibilidade, não descartável diante do aumento da combatividade das massas (se é que isto é possível depois de anos de mobilização contínua), seria que Hugo Chávez se recuperasse da sua doença e, superado pelos acontecimentos, voltasse a se radicalizar para, simplesmente, não perder a Presidência da República, já que mais além do seu honesto amor pelo povo venezuelano, sente um vício que fez chegar a confundir sua pessoa com os destinos do país onde, por casualidade, nasceu.

Nacionalismo não é internacionalismo, bolivarianismo não é socialismo e nem as bandeiras e os hinos necessitam se preocupar em manter-se em pé quando aumenta o preço da vida, fruto das irresolúveis contradições do sistema. O capitalismo seguirá colocando preços às nossas vidas, sem importar as etiquetas que nos coloquem74. O socialismo deve arrancá-las. Pode ser uma boa bússola para saber onde nos encontramos, na Venezuela e em qualquer parte do sistema-mundo.

Se o chavismo termina por ser progressivo ou regressivo nesta luta pelo socialismo venezuelano, o que só poderia ser sob a condição de construí-lo internacionalmente, só o tempo dirá. Será neste contexto da atual crise do modo de produção capitalista que os povos da terra decidirão se escolhem o caminho do socialismo ou o do aprofundamento na barbárie, que supõe que o trabalho morto privatizado75 continue reinando sobre o mundo dos vivos.

Notas

55.- Neste vídeo Chávez renega explicitamente o marxismo-leninismo: http://www.youtube.com/watch?v=2bIl4Uii5GI (2012/12/15). Por outro lado, em outros vídeos cita positivamente o Manifesto Comunista e o materialismo histórico: http://www.youtube.com/watch?v=cvZoOzf8kRA yhttp://www.youtube.com/watch?v=DJQ-E9SVXr8 (2012/12/15).

56.-“Formular as críticas só dentro das instâncias do partido, com sua devida fundamentação.” (Negrito do autor).

57.-Para ler os estatutos do PSUV: http://www.psuv.org.ve/psuv/estatutos/ (2012/12/10). (Negrito do autor).

58.-Acepção nº 2 de despotismo: “Abuso de superioridade, poder ou força no trato com as demais pessoas.” (RAE)

59.-Negrito e itálico do autor.

60.-Ibid.

61.-Que, sem chegar a possuí-la exclusivamente, foi arrancada até certo ponto do movimento obreiro internacional e as massas populares politicamente organizadas.

62.-Entrevista na CNN com Claudia Palacios, em Montevideo: http://www.youtube.com/watch?v=6jlWTiPI7ZI (2012/12/06).

63.-A Lei do Valor, redefinida por Marx, se baseia em que toda a riqueza capitalista vem da extração da mais-valia do assalariado (o tempo que o obreiro trabalha não para receber o valor do seu trabalho, mas para o beneficio capitalista), para que o empresário vá aumentando os seus lucros à mesma medida em que recupera o capital investido e volta a investi-lo para ganhar mais em um ciclo contínuo e sem fim, definido pela fórmula simplificada: D-M-D’ (D é dinheiro investido, M é a mercadoria e D é o capital adiantado mais os benefícios). A máxima do capitalismo, e sua necessidade vital, é o constante aumento dos benefícios, o “crescimento” sem fim em um mundo finito. Daí a contradição irresolúvel entre o capitalismo e o ser humano na Natureza.

64.-Por suposto que o chavismo não o tenha feito de propósito, mas assim funciona o sistema se não saímos conjuntamente da lei do valor, em um sistema internacional socialista.

65.-Alguns exemplos: URSS e China (restauração capitalista por parte da liderança comunista), Coreia do Norte (ultraestalinismo que agora deve abrir-se ao mercado capitalista) e Cuba e Vietnã, com partes da sua economia crescentemente abertas ao trabalho assalariado e ao investimento privado.

66.-Não em vão, para dar um exemplo, na Venezuela do ano 2000, o consumo de música estadunidense era um dos maiores de toda a América Latina e o consumo de informativos estadunidenses e das telenovelas burguesas era dos mais altos do mundo.

67.-Em 2008, Radonsky venceu ao chavista de direita Diosdado Cabello e, em 2012, voltou a vencer, por muito pouco, ao chavista de esquerda socialdemocrata Elías Jaua.

68.-Mandarim era o título outorgado aos altos funcionários públicos na antiga China.

69.-Período 2002/2007.

70.-Sem contar os níveis de violência urbana que transformou a Venezuela em um dos países com mais homicídios do mundo, as reformas do governo incitaram a luta de classes e são centenários o conjunto de camponeses, sindicalistas e militantes do setor popular assassinados por mercenários à serviçoda burguesia.

71.-Manuel Monereo, professor da UCM de Madrid e simpatizante do processo venezuelano, utilizou este termo de um modo cortês para nãoconquistar uma animadversão que, ao final, acabou por atrair, suscitando uma crítica bastante dura e explícita por parte de Chávez, que o fez extensivamente a todos os intelectuais de esquerda que o acusavam de exercer uma “liderança excessiva”. Ver vídeo:http://www.dailymotion.com/video/x9l3o7_chavez-responde-a-intelectuales-de_news#.UNTarfkbJMk (2012/12/21).

72.-Acepção 2ª da RAE: “Intromissão abusiva de uma pessoa ou uma autoridade em determinados assuntos, valendo-se do seu poder ou influência.”

73.-Para saber mais sobre o problema do culto à personalidade na esquerda, ler: Illescas Martínez, Jon E (Jon Juanma): “Profetas por la Izquierda: El culto a la personalidad”. Blog de Jon Juanma, 5 de maio de 2011: http://jonjuanma.blogspot.com.es/2011/05/profetas-por-la-izquierda-el-culto-la.html

74.-É igual se chamamos de “Bolivariano”, “socialista”, “neoliberal”, “socialismo de mercado”, etc…, enquanto a ei do valor seja a lógica principal dos governos e operem com ela, não haverá saída para a humanidade, mas apenas atraso para alguns povos e progresso com massacre para outros.

75.-O capital.


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