CEPRID

Revolução ou processo na Venezuela? A dialética do chavismo no sistema-mundo (II)

quarta-feira 19 de Junho de 2013 por CEPRID

Jon E. Illescas Martínez

Tradução: Fabiana Oliveira

4. Chávez, o homem político por excelência.

4.1 Chávez, o histriônico estadista, a besta política.

Em Chávez há, em síntese, ao menos dois relatos maniqueístas e hegemônicos, com diversos subrelatos, e um alternativo, que é o que vou propor. Os dois primeiros viriam de dois setores enfrentados, que Chávez ultimamente tenta unificar com uma campanha de marketing centrista e centrada no slogan da “unidade nacional”. Os dois foram nitidamente antagônicos desde 1998 até o dia seguinte ao Referendo Constitucional de dezembro de 2007. O primeiro relato viria sustentado pela direita sociológica venezuelana e os meios burgueses internacionais (sem importar se são de direita, centro ou centro-esquerda):

Relato 1: “Chávez, o autoritário mal-educado”: Segundo este relato, Chávez seria um protoditador, quando não um ditador sem ditadura, que resulta muito curioso, quando não diretamente uma descarada antinomia. Chávez seria, assim, um militar golpista de corte nacionalista, com uma ideologia desgastada e totalmente obsoleta, próxima ao marxismo “transformado” de países como Cuba ou a extinta URSS. Hugo Chávez seria, pois, uma emanação pestilente de um passado caduco (com seu projeto anti-EUA e anti-livre mercado), uma recordação incômoda e distante da lógica liberal do mercado triunfante no sistema-mundo29. Por tanto, o que deveria ser feito com ele, o quanto antes, é devolvê-lo ao passado de onde procede. Para isto, e dependendo das sensibilidades da direita, que se manifestam simpatizantes a este relato, os métodos iriam desde um isolamento diplomático e comercial, combinado com um empoderamento comunicacional e monetário da oposição “democrática” (ergo, neoliberal), que “sim respeita aos direitos humanos e à legalidade institucional” (ergo o direito capitalista), dando as garantias aos investidores estrangeiros. Isto é, oferecendo segurança política aos de sempre de que poderão extrair as mais-valias que antigamente sugavam da classe trabalhadora venezuelana.

Relato 2: “Chávez, o valente herói anti-imperialista e pró-socialista”: Este outro relato, antagônico do anteriormente narrado, reside na fé de alguns que veem a Chávez, por seu discurso e por seus reiterados enfrentamentos com os poderes fáticos (golpe de Estado direitista de 2002, greve petroleira, eleições presidenciais de 2006, etc.) como um líder pan-americano verdadeiramente revolucionário que quer, como o Che (e antes Martí ou Bolívar, forçando um pouco a história), vertebrar a unidade da América Latina em sociedades crescentemente socialistas. É um relato um tanto superficial, com o qual opera a maioria da esquerda venezuelana e a esquerda mundial politicamente organizada (exceto a maioria de maoístas e alguns outros marxistas-leninistas de diversas tendências, como trostkistas, neoestalinistas, etc.). É notório que este relato é promovido diretamente, também, pelo próprio Chávez, que na sua conta oficial de Twitter se autodefine como “Soldado Bolivariano, Socialista e Anti-imperialista”.

Gostaria de propor, desde estas páginas, outra visão de Chávez que não é una terceira via no sentidocentrista adotado pelo projeto político de Tony Blair e de Anthony Giddens, no Reino Unido. Não pretendonão “molhar-me” e parecer equidistante entre “chavistas” e “opositores”, pelo contrário, é uma tentativade esboço desde a tradição marxista revolucionária, não dogmática, mas radical30, para compreendereste fenômeno caribenho que tem ecos latino-americanos e, inclusive, mundiais, chamado chavismo.Para esboçar este terceiro relato aternativo, quero apoiar-me nos “Cadernos do Cárcere”, de Antonio Gramsci, quando afirmava sobre o fenômeno do cesarismo:

Pode-se dizer que o cesarismo expressa uma situação na qual as forças em luta se equilibram de modo catastrófico, ou seja, que se equilibram de modoque a continuação da luta não pode concluir mais que com a destruição recíproca. Quando a força progressista A luta contra a força regressiva B, podesuceder não somente que A vença a B ou que a B vença a A, pode suceder também que não vençam nem A e nem B, mas que se esgotem reciprocamente euma terceira força C intervenha desde fora, submetendo o que resta de A e de B. Na Itália, depois da morte do Magnífico, sucedeu precisamente isto, comosucedeu no mundo antigo com as invasões dos bárbaros. Mas o cesarismo, se bem expressa sempre a solução "arbitral", confiada a uma grandepersonalidade [em nosso caso, Chávez], de uma situação histórico-política caracterizada por um equilíbrio de forças de perspectivas catastróficas, nãosempre tem o mesmo significado histórico.” (Gramsci, 1999 Tomo V:65) Para Gramsci, como para Marx, a diferença do fenômeno do “bonapartismo” que sempre é reacionário, o“cesarismo” podia ser reacionário, mas também progressista. Nas palavras do revolucionário e teóricoitaliano:

Pode haver um cesarismo progressista e um regressivo, o significado exato de cada forma de cesarismo, em última análise, pode ser reconstruído pelahistoria concreta e não por um esquema sociológico. É progressista o cesarismo quando sua intervenção ajuda à força progressista a triunfar, ainda queseja com certos compromissos e temperamentos limitativos da vitória; é regressivo quando sua intervenção ajuda a triunfar à força regressiva, tambémneste caso com certos compromissos e limitações, que, sem embargo, possuem um valor, um alcance e um significado diferente que no caso precedente.César ou Napoleão I são exemplos de cesarismo progressista. Napoleão III e Bismarck de cesarismo regressivo. Trata-se de ver se na dialética"revolução-restauração" é o elemento revolução ou o elemento restauração o que prevalece, porque é correto que no movimento histórico não se retrocedejamais e não existem restaurações "in toto".(Ibid)

O cesarismo se dá naqueles contextos onde a correlação entre forças políticas em pugna é muito similare, por tanto, no há um ganhador previsível. Tanto o cesarismo como o bonapartismo se caracterizampelas altas doses de culto à personalidade. Na minha opinião, o cesarismo chavista serviu, a princípio,para aglutinar forças dispersas enfrentadas à lógica neoliberal e agrupadas nos partidos que deramfôlego à coalizão eleitoral do Polo Patriótico. O único que tinham em comum os nacionalistas, ossocialdemocratas de esquerda, os eurocomunistas e os marxistas-leninistas do PCV era o seu anti-neoliberalismo. Mas, fora isso, o quê? Não havia um projeto comum. Assim que, quando esseneoliberalismo já havia se subvertido, ou ao menos as forças políticas que o encarnavam foramderrotadas (mediante as reiteradas eleições onde o chavismo venceu), estas mesmas forças substituem oenfrentamento direto pelo entrismo troiano. “Se não pode vencer ao inimigo, junte-se a ele”, umaconhecida consigna da guerra desde a Antiguidade e os tempos do estrategista chinês Sun Tzu. É assimcomo sob a superfície chavista, reluzente e vitoriosa desde as eleições de 2004 para a AssembleiaNacional e as presidenciais de 2006, sem oposição para redigir leis desde 2004 a 2010, se esconde umaluta de classes silenciosa31. Desde 2004 a 2010, com toda a assembleia legislativa controlada pelo chavismo, este não foi capaz de redigir uma nova Lei do Trabalho que substitua a da IV República. Que classe de revolução é essa? Revolução ou, melhor, novo estado na luta de classes de larga duração (long durée32)?

4.2 Chávez, um homem preso a sua propaganda. Sobre o culto à personalidade.

Comecemos admitindo que na Venezuela existe um poderoso culto à personalidade, por parte do povo e das instituições. Por parte do povo, espontaneamente, e das instituições, organizadamente como estratégia comunicacional tendente a contra-atacar o culto à “demonização” de Chávez, proposto pelos meios antichavistas. Esta política institucional também se produz porque os revolucionários não têm nenhum cargo de importância, pois estes são ocupados pelos socialdemocratas de direita e de esquerda (poucos). Ambos, povo e instituições oficialistas, apoiam a Hugo Rafael Chávez Frías, o homem por atrás da “revolução bolivariana”, mas quem é ele realmente?

Como apontou Heráclito, ninguém pode cruzar duas vezes o mesmo rio, pois o rio já mudou e aquele que o cruza, também. No caso da evolução das pessoas, se produzem constantes e variáveis e, as vezes, também revoluções drásticas na sua personalidade: avanços e retrocessos, fruto de diferentes adaptações ou negações. Para o caso de Chávez, como para qualquer mortal, também se aplica esta lei. Aquele homem desconhecido que, com 37 anos liderara a intentona golpista contra Pérez, em 1992, não é o mesmo que, enquanto escrevo estas linhas, enfrenta a um câncer aos 58 anos de idade. Antes era o tenente coronel de um país empobrecido da periferia do sistema. Hoje é o presidente de um país da semiperiferia, ademais de um dos rostos políticos mais reconhecidos do panorama internacional. Quem é hoje Hugo Chávez? É uma pergunta demasiado ambiciosa para poder respondê-la, seria necessário um estudo profundo e minucioso da sua evolução psíquico-física durante estes anos em que viveu no epicentro do poder venezuelano. Mas também seria necessário um estudo da sua infância e do seu desenvolvimento adolescente, sua juventude, etc. Quem lhes escreve está longe de poder afrontar semelhante empresa investigadora. Simplesmente, refletirei traçando alguns esboços que, armados de uma observação atenta e de bom sentido comum, facilmente poderemos estabelecer. A principio, parecerão questões óbvias, mas sentarão as bases para uma análise mais aguda da questão.

De 1992 a 2012 passaram-se 20 anos, duas décadas, e Chávez envelheceu. Também engordou consideravelmente. Em quanto a sua importância social, objetivamente, desde que o presidente de uma república fortemente presidencialista, como a venezuelana, passou a ter um poder social muitas vezes multiplicado ao que teve como desconhecido tenente coronel do exército venezuelano. Vox populi é que o poder corrompe, ou ao menos pode corromper as pessoas e, desta maneira, também desgasta-las. O stress e a responsabilidade de tais cargos, junto às diversas e múltiplas pressões que se enfrentam, produzem um acelerado envelhecimento e desgaste das suas características. É comum que tenham um processo de acelerada flacidez na visão, alopecia e embranquecimento do cabelo. Como dizia Lincoln, “Quase todos podemos suportar a adversidade, mas se você quer provar o carácter de um homem, dê a ele poder”. Do mesmo modo que a carência quase absoluta do poder na rede de relações sociais marca a pessoa (pensemos em um indivíduo desempregado há tempos ou uma pessoa sem teto, sua baixa autoestima, tendência à depressão e ao vício em drogas, etc.), a manutenção de um grande poder durante longo tempo também pode erodir a personalidade em um sentido adverso (megalomania, despotismo, narcisismo patológico, sede de dominação, etc.). Aceitemos várias premissas básicas:

Chávez, como presidente de uma república durante mais de uma década, tem um poder muito superior em comparação ao que tem uma pessoa normal (“mais-valia de poder”). De fato, mais que a maioria de presidentes do mundo, pois o comum é que estes permaneçam no cargo entre quatro e oito anos. Sem embargo, interessante é anotar que é quantidade inferior de tempo ao que retém qualquer magnata capitalista de um banco transnacional, que permanece na direção até a sua morte.

É preciso admitir que seu poder é legítimo, uma vez que foi democraticamente eleito. Ao menos a respeito da legalidade da democracia burguesa venezuelana. O povo, de um modo mais ou menos majoritário, ratificou o poder concedido à Chávez até o dia de hoje e a oposição que gerou se mantém inferior ao número de seus votantes desde 1998. Ainda que seja é certo afirmar que a porcentagem dos seus opositores aumenta desde fins de 2007.

Chávez não se proclamou socialista até 2004/5. É dos poucos casos em que um presidente de um país se radicalizou estando no poder. Chávez, a diferença da maioria dos ativistas ou militantes de qualquer partido de esquerda, se formou enquanto exercia o cargo político mais importante do seu país. Anteriormente, seus conhecimentos se encontravam na arena do “politicamente correto”, do centrismo político.

Chávez esteve a ponto de morrer no golpe de Estado de 2002, como ele mesmo relatou repetidas vezes, e isso deixa temores, fortalece ou abranda a psicologia do indivíduo. Chávez, desde que voltou ao poder, no entanto, mantém uma política excessivamente generosa para com suas bases. A anistia concedida aos culpados do golpe de Estado de 2002 é um claro exemplo disso.

Depois do golpe, Hugo Chávez foi preso na ilha de La Orchila pelos golpistas e lá sentiu que sua vida corria sério perigo. O que não era descabido, uma vez que, depois deste “incidente”, Hugo Rafael Chávez Frías, o homem de carne e osso que agora sofre com um câncer, teve medo de morrer em uma intentona de novo tipo. Depois da greve petroleira que sofreu, a fins do mesmo ano por praticamente as mesmas forças da reação, Chávez se reuniu em 2004 com Gustavo Cisneros, a quem acusou de participar do golpe de Estado de 2002 e a quem havia chamado de “fascista”. Depois desta reunião, auspiciada nada menos que pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, o canal do magnata Cisneros suavizou as suas críticas a Chávez e, inclusive outorgou um tempo mais que razoável midiático aos políticos chavistas. Em 2007, três anos depois dessa reunião, o Executivo venezuelano não renovou ao canal privado e opositor RCTV o espectro radioelétrico venezuelano, o que significava que, a partir deste momento, RCTV deixaria de transmitir em canal aberto e só poderia fazê-lo por TV a cabo33. Isto significaria que RCTV e seu proprietário, o magnata da mídia Marcel Granier, deixariam de ganhar tanto dinheiro. Quando a RCTV transmitia em canal aberto, recebia altas quantias como pagamento pelos anúncios, por ser um dos dois canais mais vistos na Venezuela. A partir da não renovação, deveriam basear seu negócio nas cotas dos sócios. Quem foi o grande beneficiado? O canal Venevisión, propriedade de Cisneros. Venevisión, com seu máximo concorrente fora do jogo (RCTV), aumentou seus ganhos publicitários substancialmente. Cisneros é um magnata muito poderoso, não somente na Venezuela. Tem relações com a elite estadunidense, como o ex-presidente Carter, convidado para que mediara sua reunião com Chávez34, mas também com a espanhola para conectar com o mercado europeu35.

Com base nestes fatos, não seria loucura pensar que Chávez nunca foi socialista, no sentido de anticapitalista, e sim um socialdemocrata nacionalista que queria que seus compatriotas vivessem melhor, optando por uma estratégia para atrair a uma parte da burguesia para utilizá-la de apoio com o fim de destruir a outra burguesia mais teimosamente opositora e repartir seus ativos entre o povo e a burguesia colaboradora. Deste modo, se apropriava de certos meios, livrando da competição e presenteando com uma maior cota de mercado à burguesia colaboradora, garantindo a elas um mercado empodeirado pela financeirização promovida pelo Estado rentista petroleiro e um respeito jurídico (total ou provisório) para seus negócios. Tática revolucionária para avançar ou projeto nacionalista burguês?Com esta maneira de agir, as contradições entre capital e trabalho seriam deslocadas temporariamente a um futuro que logo se veria não tão distante, atendendo à conflitividade laboral em numerosas empresas estatais, como PDVSA, o setor educativo ou SIDOR.

5. A boliburguesia ou dormindo com o inimigo.

Nos tempos da Revolução Cultural na China, havia uma expressão utilizada com muita frequência nomandarim daqueles anos, que dizia: Dazhe Hongqi Fan Hongqi. Poderíamos traduzir como “Agitar abandeira vermelha para opor-se à bandeira vermelha”. Com isto, o povo chinês se referia àqueles queeram adversários de Mao Zedong e de suas ideias e para dissimular suas verdadeiras intenções, sefaziam passar por seus mais ferventes partidários (Daubier). Isto mesmo é o que sucede na Venezuelacom Chávez e muitos dos políticos autoproclamados “chavistas”, “patriotas”, “revolucionários”, “socialistas” ou sabe-se o que é mais apropriado à situação. Muitos agitam a bandeira, mas sem vento que a ondeia.

Quem lhes escreve não saberia indicar ao leitor se realmente isto sucede porque ditos “líderes”estão em contra de Chávez ou porque estão em contra das ideias pró-socialistas que este diz defender.Com isto, quero dizer que não sei se Chávez realmente é um socialista convencido ou se não vai mais além de um ex-militar de corte nacionalista e socialdemocrata36, metido a abandeirado do socialismo por casualidade histórica. Talvez vivamos em um tempo em que, para levar um mínimo de qualidade de vida às maiorias de um país semiperiférico, como a Venezuela, talvez tenha que montar um simulacro de revolução (que assuste as elites) para evitar o ressurgimento da hegemonia neoliberal, majoritária nos governos do sistema-mundo. Produziu-se casos de políticos como Diosdado Cabello (ex-vice-presidente da República quando Chávezfoi atingido pelos golpistas em 2002, ex-governador do Estado de Miranda e atual presidente daAssembleia Nacional), que tem sido amplamente repudiados pelo povo em eleições estaduais, que nãosão nada queridos pelas bases chavistas de esquerda, mas que, fracasso atrás de fracasso, seguemmerecendo a confiança de Chávez, que os realoca em novos importantes cargos. Por outra parte, está otema, promovido pelo governo, dos “empresários bolivarianos”, o que para alguns economistas marxistas venezuelanos, como Manuel Sutherland, membro da ALEM37, consiste em um autêntico disparate contrário às leis do desenvolvimento capitalista atualmente existente. Para Chávez, pareceraque todo empresário é “patriota” ou “bolivariano” apenas se respeita as suas políticas de governo, como já vimos com o senhor Cisneros e se veria com outros tantos mais.

6. Rumo ao socialismo?

Para alguns pró-homens da chamada “direita endógena” ou “direita chavista”, como Diosdado Cabello, lhes encanta dizer que na Venezuela já há socialismo. Por sua parte, Chávez algumas vezes afirma que já há socialismo na pátria de Bolívar e, em outras, que vão rumo ao mesmo. Algumas vezes, com apenas dias de diferença, celebra que o PIB cai porque o capitalismo está em declínio na Venezuela e, em outras, que sobe por mérito do seu governo “revolucionário”38. Mas o correto é que, em um país onde, depois de mais de uma década39 da suposta revolução, 2% da população (grandes latifundiários) ocupam 55% das terras e o setor privado controla mais de 70% do PIB, nos parece difícil falar de qualquer tipo de revolução. Para Sutherland, na Venezuela o que há é “um governo de caráter militar, nacionalista r socialdemocrata”. Ademais, a petroleira PDVSA, grande bastão “revolucionário” do governo venezuelano, ainda que tenha a maior parte das suas ações sob domínio estatal, tem acordos de cooperação com as burguesias de vinte e três países onde não há nenhuma suposta “revolução” e, por tanto, tendemos a crer que se consideram “capitalistas”. Parece que o Executivo venezuelano é um conjunto poliforme de políticos de diversas tendências (como já dito, socialdemocratas de direita, centro e esquerda), junto com militares, que a única sensibilidade que compartilham com os anteriores é um nacionalismo que eles chamam de “patriotismo” e se embaraça a figura de Bolívar e de Chávez, como dita a propaganda oficial de sabor hagiográfico.

Se a um processo de reformas socialdemocratas chamam de “revolução”, é porque neste momento o capitalismo não pode permitir nem esse grau de dissenso (que, sim, pode aceitar enquanto existia a ameaça da URSS40), menos ainda em um país historicamente da periferia do sistema. É por isto que as forças poliformes do Executivo chavista puderam adquirir um mínimo de coesão, garantindo que não saltassem aos pedaços à primeira escaramuça com seus rivais políticos. O socialismo venezuelano ou bolivariano, em todo caso “chavista”, é tão lasso que, como o mesmo Chávez afirmou, cabem os latifundiários, sempre que respeitem a legalidade “bolivariana”, e também grandes empresários como o senhor Mendoza, que também faz negócios com capitalistas espanholes no solo venezuelano41. E, por suposto, como sinalizamos anteriormente, são bem-vindos aqueles capitalistas que se dediquem ao negócio da comunicação e sejam moderados com sua linha editorial (Cisneros/Televen).

O socialismo não é poder de consumo com base na financeirização ou ao acesso à renda petroleira, é muito mais. Porque é verdade que há menos pobres na Venezuela, também é correto que isto se deve ao fato de que seus trabalhadores estão recebendo uma parte da mais-valia mundial, mediante o acesso à renda petroleira. Segundo a CEPAL, com o Executivo presidido por Chávez, a pobreza se reduziu de 48,6%, em 2002, a 27,8%, em 2010, enquanto que a pobreza extrema passou de 22,2% a 10,7%42, reduções muito importantes quando na maioria dos países do mundo a tônica é ampliar as diferenças. Mas também é correto que, atualmente, alguns venezuelanos super ricos são mais ricos que antes da era Chávez43. De fato, a Venezuela é o sétimo país com mais super ricos na América Latina44. Por outro lado, as diferenças gerais entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres se reduziram até o ponto de ser o país menos desigual da América Latina, no ano de 200945. A diminuição se deu tanto nos índices de pobreza absoluta como de pobreza relativa. Apesar disso, a Venezuela segue tendo um índice de desigualdade, segundo dados de 2011, superior ao de países da antiga URSS, como a Letônia ou a Estônia, depois de mais de vinte anos de capitalismo. Mas também tem uma desigualdade maior que países tão capitalistas como a Coreia do Sul, Grécia ou Espanha (com dados atualizados da crise)46 ou, inclusive, com respeito aos da sua liga histórica da semiperiferia periférica, como Níger, Indonésia ou Mongólia47. Segundo Sutherland, para o ano de 2010, depois de onze anos de governo “bolivariano”, 71% do PIB venezuelano estava controlado pelo setor privado, enquanto que o controlado pelo Estado só alcançava 29%. O curioso é que, no ano em que Chávez começou a governar, a parte do PIB correspondente ao Estado era ligeiramente mais favorável (32%)48. Sutherland culpa por isto aos planos do Estado e à burguesia venezuelana, pois a segunda não poderia obter lucros tão grandes sem a ajuda do Estado49. PDVSA, a petroleira estatal, gera 96% das divisas disponíveis e mediante o controle de câmbio por parte do Estado, esta renda petroleira chega às mãos de uma burguesia rentista e improdutiva, que se dedica a importar produtos e vende-los na Venezuela a preços desorbitados. Pura especulação, fruto de décadas de rentismo. De fato, a burguesia venezuelana chega a um nível de parasitismo tamanho que importa 9 vezes o que exporta, que “dessa mísera exportação não petroleira, mais de 80 % consiste de minerais extraídos com baixo processamento50.” Por tanto, neste tempo, e apesar da propaganda oficial, o Estado não se tornou maior, mas ligeiramente menor em quanto ao sua participação na economia venezuelana, inserida por completo, não nos esqueçamos nunca, no sistema-mundo capitalista. Estas cifras deveriam ser suficientes para derrubar o mito chavista do “empresário bolivariano51”. A respeito ao socialismo agrário, Chávez chegou a afirmar que apoiaria aos latifundiários, o que vai em contra da própria Constituição venezuelana, promovida pelo seu governo. Chávez declarou respeitar aos latifundiários, com a condição de que produzam:

“Uma extensão de 75 mil hectares, de 100 mil hectares, por mais que me venha a sustentá-lo, é umlatifúndio, a menos que tenha 100 mil cabeças de gado. Ah bom, sou capaz de te respeitar, sempre equando me dê o gado a preço regulado para o povo venezuelano." (Chávez dixit)52

O presidente supostamente “revolucionário”, de um país que vai “rumo ao socialismo”, se comprometeu publicamente a respeitar aos latifundiários que tenham terras de tamanho semelhante ou maior que grandes cidades como Madrid, Paris ou Rio de Janeiro53. Com a única condição de que produzam, que explorem aos trabalhadores e acumulem capital, sempre que deixem alguma migalha dos benefícios no país. Curioso socialismo este. No entanto, para ser justos, devemos admitir que o que sim se produziu na Venezuela com o Governo de Chávez é um empoderamento simbólico de todos os empobrecidos. Pela primeira vez deu-se a palavra e se conta com eles como atores políticos protagonistas54. Para alguns analistas e militantes venezuelanos, não sem razão, este, e não outro, pode ser considerado o maior logro da Revolução Bolivariana. Revolução que, caso seja, nos dias de hoje não deveria ser chamada de socialista, mas sim serviu para alçar a voz dos empobrecidos, dignificando-os.

29.- Ao menos até que desde o início da crise de 2007, mais da metade dos governos do mundo se dedicaram a injetar dinheiro público à banca privada, estrangulando o nível de vida de suas classes populares. Vemos neste caso países como Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal; mas também Estados Unidos ou Alemanha (menos comentados pelos meios hegemônicos).

30.- “Radical” é aquele que vai à raiz para advertir a origem dos problemas que se manifestam na superfície e todos veem (pobreza, corrupção, violência, etc.). Não tem nada a ver com “extremista”, que é um sinônimo falso de “radical”, forçado pelos meios de comunicação capitalistas para desprestigiar os projetos políticos que querem ir à raiz dos problemas, e por assim, subverter o sistema genocida que nos governa.

31.- A oposição não se apresentou às eleições legislativas de dezembro de 2005 e, por tanto, durante essa legislatura, o chavismo teve uma maioria esmagadora que quase chegou à totalidade dos grupos políticos, se não fosse pelas exceções de uns poucos deputados publicamente díscolos, a serviço ou não, da oposição sem representação na câmara.

32.- Seguindo os tiempos históricos de Braudel.

33.- Em 2010, deixaria de fazê-lo também por este meio, devido a uma polêmica com as autoridades do país.

34.- Chávez reconheceu a reunião só depois que esta vazara pela imprensa e parecia bastante ansioso, dando as explicações pertinentes. Inclusive no seu programa Aló Presidente, uma velhinha ligou para advertir-lhe que cuidasse para não cercar-se de tão más companhias. Hernández Arvero, Miguel Ángel: “Carter, Cisneros y Chávez: ¿de qué hablan?” Aporrea, 20 de junho de 2004: http://www.aporrea.org/actualidad/a8632.html(2012/12/09).

35.- Amigo de Felipe González, George H. W. Bush e bem relacionado com os reis da Espanha. Pode-se seguir sua intensa atividade relacional na sua página pessoal em FlickR: http://www.flickr.com/photos/gustavoacisneros/ (2012/12/21).

36.- Não digo “socialdemocrata” como algo pejorativo, mas como um socialdemocrata sincero, tipo Olof Palme, que quer que as grandes maiorias vivam bem. A diferença com Palme é que Chávez está em um país fora do (atual) “primeiro mundo”, onde se supõe que os presidentes não podem ser socialdemocratas.

37.- Associação Latino-americana de Economia Marxista.

38.- O PIB baixa e é bom: EFE: “Chávez dice que baja el PIB porque cae el capitalismo”. Los Tiempos, 27 de maio de 2010:http://www.lostiempos.com/diario/actualidad/economia/20100527/chavez-dice-que-baja-pib-porque-cae-el-capitalismo_72593_134616.html “Quando digo digo, não digo Diogo”, o PIB alto é bom:VTV: “La economía venezolana está sólida y va a la inversa de la crisis del capitalismo”. Tercera Información, 9 de agosto de 2010: http://www.tercerainformacion.es/spip.php?article17465

39.- Em total, nada menos que treze (13) anos de “revolução” e mais de sete falando do caráter “socialista” da mesma.

40.- Como apontou o historiador Bernat Muniesa, o capitalismo elegeu cortar-se um dedo (Estados de bem-estar) em lugar da mão (socialismo/comunismo).

41.- Como é o caso do grupo Leche Pascual, con quem Alimentos Polar está construindo uma imensa fábrica de iogurtes que se comercializarão sob o selo do grupo da família Mendoza.

42.- Bultrago, Leonardo: “Venezuela es el tercer país con menor pobreza en Latinoamérica”. AVN Noticias, 13 de janeiro de 2012:http://www.avn.info.ve/contenido/venezuela-es-tercer-pa%C3%ADs-menor-pobreza-latinoam%C3%A9rica

43.- Dudley, Steven: “Surge una nueva clase de ricos en Venezuela”. El Instituto Independiente, 17 de julho de 2006:http://independent.typepad.com/elindependent/2006/07/surge_nueva_cla.html (2012/12/21).

44.- A Venezuela, segundo o Reporte Mundial da Ultra Riqueza, elaborado pela companhia Wealth X, tem 500 indivíduos que possuem uma renda superior a 1 bilhão de dólares. Pode-se ver em Banca y Negocios, 10 de dezembro de 2012: http://bancaynegocios.com/venezuela-el-septimo-pais-con-mas-ultra-ricos-en-latinoamerica/ (2012/12/10).

45.- Noticia al día, 22 de agosto de 2012: http://noticiaaldia.com/2012/08/onu-venezuela-es-el-pais-con-menor-menor-desigualdad-entre-ricos-y-pobres-de-america-latina-y-el-caribe/ (2012/12/21).

46.- Ainda que a tendência na Espanha e a de aumentar a desigualdade, desde 2007, e pode ocorrer que, em alguns anos, que a Espanha seja um país mais desigual que a Venezuela, se continuar a tendência antagônica de ambos. El blog Salmón, 22 de junho de 2011:http://www.elblogsalmon.com/economia/el-indice-de-gini-en-espana-a-nivel-de-1995-y-aumentando-las-desigualdades (2012/12/21).

47.- Dados da Coreia do Sul (ano de referência 2010), Indonésia (2009), Mongólia (2008), Níger (2007), CIA WorldFactbook, ano 2012:https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2172rank.html?countryName=Bangladesh&countryCode=bg&regionCode=sas&rank=98#bg Espanha e Grécia, Eurostat de abril de 2012, ano de referência 2011:http://epp.eurostat.ec.europa.eu/tgm/table.do?tab=table&plugin=1&language=en&pcode=tessi190 .

48.- Sutherland, Manuel: “La economía venezolana o cómo la burguesía hurta la renta petrolera y es dueña del 71% del PIB” Alemistas, 7 de setembro de 2012: http://alemistas.org/?p=437 (2012/12/11).

49.- Como em qualquer país do sistema-mundo capitalista.

50.- Ibídem.

51.- Chávez realizou numerosos chamados aos empresários “patriotas” e “bolivarianos” para que não tenham medo do seu governo e que deixem que este os ajude em seus negócios. De fato, se formou uma “Frente de Empresários Bolivarianos com Chávez” em que os mesmos empresários agradeciam a Chávez pelo acesso à renda petroleira para seus negócios. Ver en: http://www.youtube.com/watch?v=QMYegA6SLZo yhttp://www.noticias24.com/venezuela/noticia/104040/inauguran-el-frente-de-empresarios-bolivarianos-con-chavez-en-carabobo-fotos/ .

52.- Aló Presidente, 24 de fevereiro de 2008.


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