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Assange: o custo de ser dissidente no Ocidente

sábado 21 de Julho de 2012 por CEPRID

Wei Ling Chua

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

CEPRID

Assange prestou um serviço à humanidade através da publicação das comunicações diplomáticas estadunidenses que revelavam que “as decisões políticas dos Estados Unidos estavam mais motivadas pelo petróleo do que pela luta contra o terrorismo”, e que o assassinato e a tortura de dezenas de milhares de civis pelas forças dos Estados Unidos e da OTAN no Iraque e Afeganistão foram, respectivamente e pelas provas, crimes de guerra.

Para sua consternação, Assange, como dissidente ocidental, não goza da indulgência outorgada aos dissidentes chineses. Os políticos do “mundo livre” não querem reconhecer que ele atuou com nobreza através da exposição de violações dos direitos humanos e crimes de guerra cometidos pela OTAN e EUA. O presidente Obama falou de um “deplorável vazamento de documentos”; o ex-representante da Câmara de Deputados, Newt Greenwich, disse que Assange deve ser considerado como um “combatente inimigo”; o líder do Partido Republicano, Mitch McConnel, qualificou Wikileaks como “alta tecnologia terrorista”, e Sarah Palin quer que ele seja perseguido “como a Al Qaida”. Outros políticos, incluindo líderes dos meios de comunicação, tem pedido abertamente sua morte.

O acesso à Wikileaks foi imediatamente bloqueado pelos funcionários federais dos Estados Unidos, e o mesmo aconteceu na Alemanha. No Canadá, os censores bloquearam os sites Web de Wikileaks, a Interpol emitiu uma ordem de prisão contra ele e Tom Flanagam, o principal assessor do primeiro-ministro canadense Stephen Harper, sugeriu que ele fosse assassinado por um avião não tripulado.

Informou-se que Facebook tinha apagado a página de Wikileaks, com 30 mil participantes. Repórteres sem Fronteiras, os vigilantes dos meios de comunicação (o grupo da liberdade de imprensa), financiados pelo governo dos EUA, acusaram-no de ser “irresponsável”.

As fontes de financiamento foram bloqueadas pelas empresas ocidentais, tais como Visa, MasterCard, Amazon, PayPal, Western Union e Bank of América. Dessa forma, Wikileaks, econômicamente estrangulada, viu-se obrigada a fechar temporariamente seu site em 2010. Quase ninguém no sistema de imprensa se atreve a apresenta-lo como um ativista dos direitos humanos ou pela liberdade de expressão. De fato, como os australianos tem assinalado, “os editores se voltaram contra ele”. The Guardian (Grã-Bretanha), assinalou que “os jornalistas mantém distância de Wikileaks e Assange”. Um foro de discussão do Washington Post pediu que aplicassem a ele a Lei contra a espionagem. Se acreditarmos numa enquete da CNN, o povo norte-americano parece também já ter abandonado o assunto, 77% das pessoas diz que os documentos do governo dos EUA não deveriam ter sido publicados. Os advogados que defendem Assange queixam-se que são objeto de perseguições e pressões por parte de Washington.

Assange foi completamente abandonado por sua pátria-mãe, a Austrália. O governo australiano não só está completamente desinteressado por seus direitos humanos básicos e pela liberdade de imprensa, como também a primeira-ministra Júlia Gillard se uniu aos Estados Unidos para condená-lo, alegando que ele tinha atuado de forma ilegal. Em duas ocasiões, o governo australiano ameaçou prendê-lo, apesar de saber muito bem que Assange não é bem tratado na Inglaterra desde 2010. Sua liberdade de movimentos viu-se limitada por um bracelete eletrônico, e ele está virtualmente sob prisão domiciliar depois de passar nove dias em regime de isolamento em uma prisão de Londres, sem imputações e com base em acusações que especificamente foram negadas. Segundo sua mãe, Assange não recebeu nenhum apoio do governo australiano. De fato, a Austrália se propôs a cancelar o passaporte de Assange. Também tratou de evitar que sua advogada australiana, Jennifer Robinson, voasse até o aeroporto de Heathrow, por que ela estava em uma “lista de vigilância” e necessitava de permissão oficial para voltar à sua terra natal.

Assange é um ocidental dissidente, que não goza da indulgência concedida aos dissidentes chineses. Sua causa pode ser nobre, e um russo sugeriu que ele deveria receber o prêmio Nobel da Paz, mas as forças que decidem seu destino são poderosas e impiedosas. Ele poderia terminar como Bradley Manning em uma famosa prisão militar dos EUA, obrigado a passar todas suas noites nu, mantido em confinamento solitário, perseguido e privado do sono, como recomenda o manual da CIA. Funcionários da ONU se indignarão de vez em quando pelo “tratamento cruel e degradante”, mas os meios de comunicação mais alinhados sequer se dignarão a fazer comentários. O “mundo livre” manterá o julgamento de Manning em segredo; sabemos que seu advogado está lutando pelo acesso aos documentos do governo para preparar sua defesa. Ao que parece, também as pessoas que se preocupam por sua saúde tem muitas dificuldades em obter permissão para vê-lo.

Os direitos humanos e a liberdade de imprensa são realmente valores ocidentais universais?


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