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A cooperação entre Rússia e China anuncia o fim do poder do Ocidente

domingo 27 de Novembro de 2011 por CEPRID

Por Alberto Cruz* para o CEPRID em 14/11/2011

A Rússia está a ponto de dar uma reviravolta de grande estatura à sua política externa. A esquizofrenia que vivera durante o mandato de seu atual presidente, Dmitri Medvédev, está chegando ao fim [1].

Medvédev vinha imprimindo uma notável mudança pró-estadunidense e pró-ocidental à política externa, em temas como o programa nuclear do Iran, a OTAN ou a Líbia (em que apoiou os bombardeios) para, supostamente, impulsionar a modernização do país. O primeiro ministro, Vladimir Putin, entendia justamente o contrário: que somente uma Rússia com pleno controle de seus recursos energéticos (um de seus principais setores exportadores) e com a recuperação do terreno perdido nos seus antigos aliados na época da União Soviética, poderia manter o país plenamente independente e com voz no âmbito geopolítico, ao mesmo tempo que conseguiria os recursos necessários para estimular a modernização. No caso da Líbia, Putin criticou a OTAN com veemência , por ter ido além do escopo da Resolução da ONU, e bombardeado a população civil.

A batalha entre ambos – que para alguns, como o Partido Comunista da Rússia, não é mais do que o embate de duas caras da mesma moeda – tem-se mostrado favorável ao segundo. Apesar de pertencerem ao mesmo partido, Rússia Unida, Medvédev e Putin mantinham uma luta surda pela candidatura à presidência nas eleições de 2012. A disputa foi resolvida de forma a satisfazer ambas as partes: a troca de posições. O que motivou esta estranha solução? Por um lado, o triunfo do Partido Republicano dos EUA nas eleições de novembro de 2010. Uma das primeiras iniciativas conduzidas pelos republicanos, que dominam o Congresso dos Estados Unidos, foi paralizar a ratificação do novo tratado START de controle de armas nucleares estratégicas. Por outro, embora com menor peso, a aceleração da estratégia militarista simbolizada pelo chamado “escudo antimísseis”, a ser instalado em países fronteiriços à Rússia, vista por este país como uma ameaça direta.

Medvédev gabava-se de ter “arrancado” de Obama a necessidade de “chegar a um consenso” com a Rússia a respeito do projeto de defesa antimísseis. Mas a realidade é que os EUA não fazem consensos a respeito do tema com ninguém, simplesmente impõem. Este assunto, muito delicado na Rússia, foi minando as possibilidades de Medvédev e reforçando a posição de Putin, que sempre declarou que devia existir uma garantia expressa pelos EUA de que o citado projeto não seria usado contra a Rússia. Um ano depois, o tempo deu razão a Putin ao ficar constatada essa realidade. O ministro de Assuntos Exteriores russo qualificou a atitude dos EUA de “insincera”, ao negar-se a dar as garantias jurídicas a que se referia Putin. [2]

Por isso, as posições de Putin sobre política externa saem notavelmente reforçadas, enquanto Medvédev cai no ostracismo, ainda que ganhe, como prêmio de consolação, a candidatura ao cargo de primeiro ministro. Se durante a sua presidência houve dois atores claros e muitas vezes em posições opostas, ele e Putin, durante o provável mandato de Putin à frente da presidência só haverá uma voz em política externa. E essa voz estará cada vez mais distante do Ocidente, deixando para trás os afagos de Medvédev à OTAN. E não será por outro motivo que voltaremos a presenciar campanhas políticas e midiáticas contra Putin como as que foram lançadas durante o seu mandato anterior como presidente: envenenamento de espiões, assassinato de jornalistas, prisão de oligarcas aliados do Ocidente, etc. Além disso, a troca de posições – “roque”, segundo analistas russos – só reforça o partido Rússia Unida nas eleições de 2012 uma vez que passa uma imagem de unidade num momento em que era evidente o caráter irreconciliável das posturas de ambos os dirigentes, polarização essa que dividia a opinião pública e abria espaço à oposição de esquerda. Não por acaso, um segmento cada vez maior da população russa manifesta saudades dos velhos tempos da URSS, e nada menos de que 25% do eleitorado da Rússia ficam em dúvida quanto à possibilidade de retorno ao antigo sistema.

A aproximação com a China e o fim do dólar

Putin já age, de fato, como presidente. Num giro de 180 graus em relação à postura anterior com a China, passa de inimigo a aliado, e busca uma relação estratégica entre os países como forma de criar um contraponto efetivo, tanto político como econômico e militar, ao Ocidente.

Mal foi feito o anúncio de que seria o candidato a presidente, ou seja, o possível sucessor de Medvédev, Putin já realizou a sua primeira viagem ao exterior. Destino: Pequim. Uma viagem, de 9 a 12 de outubro, à qual, no Ocidente, não se deu a devida importância. Talvez pela convicção de que aquilo que não se publica não exista. Mas essa viagem seria crucial por três motivos. Primeiro, porque deixava bem claro que o papel da Rússia na política externa já não considerava o Ocidente. Em segundo lugar, porque almejava estabelecer uma cooperação energética de grande porte, distante da moribunda Europa – a Rússia é o maior produtor mundial de energia e a China a maior consumidora. Em terceiro e último lugar, porque a visita ocorria na mesma semana em que ambos os países tinham vetado a resolução apresentada pelo Ocidente na ONU contra a Síria, uma rara unanimidade entre Rússia e China no Conselho de Segurança, onde se contam nos dedos as vezes em que houve coincidência de votos, coincidência essa que também nunca existiu no que se refere ao interesse dos dois países pelo Oriente, seja ele o Próximo ou o Extremo Oriente. Portanto, o veto conjunto na ONU anuncia que os dois vão passar a ter um papel muito mais protagonista nessas áreas a partir de agora. Deixam claro que não haverá outra Líbia, e isso supõe um enfrentamento direto com os EUA e a EU, além de representar um anúncio que não deve ser desprezado: russos e chineses disseram basta à prepotência ocidental. A candidatura de Putin à presidência foi acolhida pela China com toda a sorte de bênçãos. “A sua volta [à presidência] é digna de ser bem-vinda por todo o mundo, porque as políticas interna e externa da Rússia serão mais estáveis e previsíveis, o que é benéfico para a estabilidade das relações internacionais, especialmente para o desenvolvimento das relações bilaterais com a China,” disse Wang Haiyun, vice-presidente do Instituto de História das Relações Sino-Russas [3].

Neste caso, o acadêmico foi mais discreto do que os políticos. O presidente chinês, Hu Jintao, disse que se iniciava uma era de “relação estratégica integral”. Putin, por sua vez, foi muito mais agressivo: “A relação entre os dois países não encontrará problemas em nenhuma esfera. (…) O parasitário domínio do dólar tem que terminar.” [4] Putin pode ser qualquer coisa, mas não é bobo. A referência ao dólar foi feita num momento chave, já que três dias antes da sua visita a Pequim o Senado dos EUA tinha ameaçado a China com uma guerra comercial se ela não reavaliasse a sua moeda para favorecer o comércio mundial – ou seja, o dos EUA – já que para os estadunidenses o ien está sub-valorizado e favorece as exportações chinesas. Neste momento é a China que apresenta superávit comercial com os EUA de 273 bilhões de dólares, e não o contrário. O fim da “era estadunidense” está muito mais próxima do que se acredita.

Ainda que os chineses não sejam tão agressivos e tenham como premissa salvaguardar as relações com os EUA, a nova relação com a Rússia equivale a uma situação de “ganha-ganha”. A visita de Putin terminou com a assinatura de 16 acordos econômicos e comerciais no valor de mais de 6 bilhões de euros, com o investimento chinês de 1,1 bilhão de euros num complexo industrial de fundição de alumínio na Sibéria, e com a criação de um fundo comum de investimentos de outros 1 bilhão de euros. A Rússia, pelo seu lado, vai levar petróleo para a China através do oleoduto Skovorodino-Daqing. Até agora, a presença russa na China era “lenta e limitada”, comparada aos resultados da visita de Putin, sobretudo quando entra em cena a jóia da coroa russa: a Gazprom, a maior exportadora de gás natural do mundo. A China reforça o seu calcanhar de Aquiles, a produção energética, e garante o seu protagonismo mundial.

O comércio entre os dois países foi, em 2010, de 54 bilhões de euros e, em virtude do novo acordo, espera-se que chegue a 65 bilhões de euros em 2011, passando para 95 bilhões em 2015, até chegar a 200 bilhões em 2020. Ou seja, quando Putin chegar à presidência em 2012, todo o seu mandato estará concentrado neste objetivo, e a Europa e os EUA ficarão relegados a segundo plano na estratégia russa, posto que os aliados ocidentais fizeram todo o possível para dificultar os acordos de fornecimento de gás russo à Europa (recorde-se o conflito pelo gás com a Ucrânia). Além disso, russos e chineses estipularam que esse intercâmbio comercial não tem razão de ser baseado no dólar. Os chineses deixam para os novos sócios o enfrentamento com o Ocidente e se beneficiam com isso. A menos que os EUA dêem o passo que querem os republicanos da guerra comercial. Então a China terá que atuar, e não é à toa que existe um lobby contra os republicanos nos EUA: as principais multinacionais com interesses na China estão pressionando o Senado para que não aprove uma lei que será muito perigosa para os seus interesses, e que acabaria por ferir ainda mais a economia estadunidense.

O novo bloco político-militar: a União Euroasiática

A nova relação estratégica entre a Rússia e a China tem também como objetivo a criação de um bloco político, econômico e militar que sirva de contraponto aos EUA e à UE, a denominada União Euroasiática. É um velho sonho russo que deseja a criação de um novo pólo que faça frente ao Ocidente. Na linguagem diplomática russa, a dita União Euroasiática deve converter-se em “uma ponte efetiva entre a Europa e a dinâmica região da Ásia-Pacífico.” Por isso, serão reativados os exercícios militares conjuntos, o seu papel no eixo dos BRICS, e será renovado o ar da decadente Organização para a Cooperação de Shangai (OCS).

Formam a OCS a Rússia, a China, o Kazaquistão, o Quirguistão, o Taiquistão e o Uzbequistão, e às suas conferências são convidados o Irã, que já solicitou a adesão plena, o Paquistão e a Índia, que não pode ficar à margem da nova ordem regional e mundial, ainda que flerte com os EUA e com a OTAN (Rússia e China não darão nenhum passo em relação à Índia até que estejam certos de que esse país não seja um cavalo de Tróia dos EUA na União Euroasiática). O mesmo se passa com a Turquia, membro da OTAN, que também solicitou que seja considerado “sócio de diálogo” da OCS. O Afeganistão, Sri Lanka e a Mongólia pediram recentemente a adesão como observadores.

Nos últimos dois anos a OCS foi mantida quase em hibernação e a China acusava a Rússia de “não levar a sério” a OCS, pela aproximação de Medvédev com a OTAN. Entretanto, em julho deste ano aconteceu uma reunião crucial no Kazaquistão. Para surpresa de quase todos, o que se discutiu foi não somente o reforço da cooperação militar mas também a adoção de uma nova moeda global e a criação de um banco de desenvolvimento. Porque é importante esta revitalização da OCS? Simplesmente porque estamos falando de uma aliança de países que contam com quase a metade da população mundial.

O que está em marcha é uma OCS que combina aspectos de uma aliança militar como a OTAN, com as vantagens econômicas de uma união entre países como a UE ou a UNASUR, só que muito mais populosa e em constante crescimento. O processo está em aceleração e já se prepara um novo encontro, desta vez em São Petersburgo, onde será discutido “o fortalecimento da cooperação entre os estados membros da OCS em diversos âmbitos, entre eles a agricultura, a economia e o comércio, as finanças, a tecnologia e a energia, entre outros.” [5] Inclusive, o FMI e o Banco Mundial se vêem ameaçados com a possibilidade da criação de uma nova moeda para as transações financeiras nestes países. Esta é a razão pela qual desde o verão os EUA decidiram voltar a focar na sua presença na Ásia e a agitar velhos conflitos como o que enfrenta o Vietnã com a China a respeito do Mar Meridional da China. O propósito é dificultar ao máximo esta integração, que pode chegar a dominar rotas estratégicas e desenvolver novas relações políticas, econômicas e militares sem a interferência ocidental e, sobretudo, dos EUA.

Presidente dos EUA, Barack Obama, se encontra com soldados em base australiana na cidade de Darwin

Os chineses sabem que uma de suas fraquezas estratégicas, a energia, está assegurada com a nova relação com a Rússia. A outra é a dependência das importações e exportações via marítima. Por isso está construindo porta-aviões e por isso está reforçando o seu poderio militar e suas alianças neste campo. Se durante o nonagésimo aniversário da criação do Partido Comunista Chinês foi feito o anúncio de que a China estava à procura de um local para instalação de uma base naval [6], a primeira fora do território chinês, agora já se sabe que foi feito um acordo com o Sri Lanka para que a marinha de guerra chinesa possa utilizar o porto de Hambantuta, um dos maiores dessa região. Não deveria causar surpresa, portanto, que o Sri Lanka tenha pedido o ingresso como observador na OCS, na qualidade de observador.

A aliança estratégica entre Rússia e China se fortaleceu com a agressão à Líbia. Ambos os países foram tomados de surpresa pela decisão da Liga Árabe, patrocinada e impulsionada pela Arábia Saudita, e tiveram uma reação hesitante que os levou à abstenção no Conselho de Segurança da ONU. Mas o contra-ataque foi espetacular, demonstrado tanto pelo veto na resolução contra a Síria quanto com esta nova aliança geopolítica. Para a Rússia e a China, a agressão à Líbia foi a constatação de que as palavras de mudança de Obama no início de seu mandato não eram mais do que uma tática e um exercício de relações públicas, e que estava muito longe de um compromisso sério pela paz ou pelo respeito ao direito internacional. Russos e chineses estão cada vez mais conscientes disso e agem em conseqüência. Principalmente quando o Secretário de Defesa dos EUA não se inibe em afirmar que uma aliança militar entre Rússia e China é “uma ameaça para a segurança nacional dos EUA e para o mundo inteiro” [7]

Vivemos numa época em que a intensidade das mudanças geopolíticas está na mesma proporção que há 20 anos atrás, com o desaparecimento da URSS e o começo de um mundo unipolar sob o pomposo nome de Nova Ordem Mundial. Esse mundo desmorona agora. Como foi dito antes, o fim da “era estadunidense” está chegando ao fim. Como uma fera ferida, o imperialismo se torna mais perigoso e existe um país, o Irã, que pode se transformar na pedra de toque que ameaça a nova estratégia sino-russa da União Euroasiática, numa medida até maior do que as escaramuças do Mar Meridional da China. A renovação das ameaças contra o país persa devido ao seu programa nuclear vai nesta direção, de criar um problema para dois de seus principais sócios econômicos e aliados políticos.

Já disse Brezinski, ex-representante estadunidense no Conselho de Segurança da ONU sob a presidência de James Carter, há duas décadas atrás: “a primazia global dos EUA depende diretamente da duração e eficácia de sua preponderância no continente euroasiático”.

(1) Alberto Cruz, “La deriva pro occidental de Rusia en el enfrentamiento Medvedev-Putin”http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article1010

(2) Ria Novosti, 31 de octubre de 2011.

(3) Diario del Pueblo, 27 de septiembre de 2011.

(4) Xinhua, 14 de octubre de 2011.

(5) Xinhua, 8 de noviembre de 2011.

(6) Alberto Cruz, “China: Ejército, geopolítica y el retorno a Mao” http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article1205

(7) Voice of Russia, 14 de septiembre de 2011.

Traduzido por Gustavo Lapido Loureiro


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