Otelo Saraiva de Carvalho


otelo saraiva de carvalho

Amado e odiado com uma intensidade raras veces anotada na História recente ou remota de Portugal, Otelo Saraiva de Carvalho, o comandante operacional do 25 de Abril, é o herói da mais pacífica revoluçâo da Historia que importa conhecer.

Segundo filho de um funcionario dos CTT e de uma empregada dos caminhos-de-ferro, Otelo Nuno Româo Saraiva de Carvalho nasceu em Lourenço Marques (hoje Maputo) a 31 de Agosto de 1936. Evacuado para Lisboa aos seis anos, por sofrer de paludismo, ficou a viver com os avós maternos na Rua Elias Garcia, frequentando a escola primária da Visconde Valmor. Seguiu-se o Liceu Camôes, onde fez o 1º ano, regressando depois a Lourenço Marques, onde tudo continuava na mesma, que para ele representava o melhor dos mundos. No liceu que ostentava o nome de Salazar fez o 5º ano. O seu herói imaginário era entâo Robin dos Bosques, mais pelo lado temerário e optimista do que pela faceta romântica. E delirava com Sandokan e o terrível tigre da Malásia. Retornou a Lisboa e ao Camôes para fazer o 6º ano, mas acabou o 7º ano jà em Moçambique.

Otelo quis ser actor e aos 15 anos pediu ao comissário provincial da Mocidade Portuguesa  para ser director da secçâo de teatro do Liceu Salazar. Mas a teimosia nâo deu grandes frutos. Cumprido o 7º ano, acabou por ver-se obrigado a seguir para a Escola do Exército, por ajuizada vontade do avô materno. Mas nem a rigidez da praxe castrense impediu a recaída. Mentor do grupo teatral da caserna, ali encarnou novos personagems de circunstância, sempre sem grande sucesso. Nada que o impeça ainda hoje de conceder a si pròprio o beneficio da duvida e de lamentar nâo ter obtido da família a satisfaçâo da sua vocaçao.

O contacto com os militares spinolistas, mais preparados política e culturalmente, na Guiné, lhe permitiu començar a abrir os olhos. Foi capitâo em Angola de 1961 a 1963 e tambem na Guiné entre 1970 e 1973. Na fase final da guerra, militarmente perdida, foi um dos principais dinamizadores do movimento de contestaçao ao Decreto Lei 353/73, que deu origem ao Movimento dos Capitâes e ao MFA. A circunstância de ser professor de táctica de Artilharia na Academia Militar aconselhava-o para o desempenho da complexa e arriscada missâo da pôr fim à dictadura. Foi por isso designado responsável pelo sector operacional da Comissâo Coordenadora do MFA, condiçao em que dirigiu as operaçôes do 25 de Abril, a partir do posto de comando clandestino instalado no Quartel da Pontinha.

O día 25 de Abril foi o mais feliz da sua vida. O sonho materializava-se numa dimensâo que nem a sua fértil imaginaçâo julgara possível : nunca em nenhuma parte do mundo houve tanta liberdade como naquela altura em Portugal. Quando à uma e meia da tarde de 26 de Abril abandonou o posto de comando do Movimento das Forças Armadas, na Pontinha, de onde havia dirigido o derrube da dictadura, Otelo, sabia o que nâo quería - a dictadura e a guerra -, mas nâo o que desejava para o futuro que irrompia á sua frente. Considerava-se entâo un social-democrata, coisa que nâo aquecia nem arrefecia vinda da boca de um militar, como ingenuamente confessou ao ESPRESSO na sua primeira grande entrevista. Os dias que se seguiram foram de aprendizagem acelerada.

Ninguém terá tido na agitada história da democracia portuguesa tanto poder ao alcance das mâos. Nem nunca ninguém o terá recusado de forma tâo categórica como ele. Nâo quis o cargo de chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, que lhe foi oferecido por Spínola logo a seguir ao golpe, e recusou a possibilidade de ascender á Presidência da República, ponderada no "Verâo Quente" de 75. Limitou-se a fazer parte do Conselho dos Vinte e do Conselho da Revoluçao, e foi comandante do COPCON e da Regiâo militar de Lisboa,graduado primeiro em brigadeiro e depois em general.

En Maio do mesmo ano integra, com Costa Gomes e Vasco Gonçalves o Directório, uma estructura política de cúpula do MFA que exerce grande influência sobre os IV e V Governos Provisórios. Otelo personificava o sonho de uma segunda revoluçâo - um outro 25 de Abril, puro e duro, tal e qual o haviam imaginado no exílio os intelectuais maoístas e trotsquistas fugidos à guerra.

Conotado com a ala mais radical do MFA, foi preso em Janeiro de 76, em consequência dos acontecementos de 25 de Novembro, acusado de abuso de poder durante o período em que comandou o COPCON. A nota de culpa condena, sobretudo, os mandatos de captura que assinou em branco. Solto 44 dias mais tarde é candidato às eleiçôes presidenciais de 1976. É a altura em que diz que "a democracia parlamentar nâo satisfaz as necessidades de uma política real ao serviço das classes trabalhadoras". É derrotado por Ramalho Eanes. En Outubro de 76 volta a ser preso durante 22 dias. Volta a concorrer às presidenciais em 80. Em Junho de 84 volta a ser preso, desta vez sob a acusaçâo de liderar as autodeterminadas Forças Populares 25 de Abril (FP25), a organizaçâo armada que lutava "por uma revoluçao socialista". Confessa-se comunista, ainda que numa acepçao pouca ortodoxa, sem ligaçao às estructuras organizadas do PCP. Otelo foi condeado a 18 anos de prisâo, dos quais cumpriu cinco, após ter apresentado recurso da sentença condenatória ficando a aguardar julgamento em liberdade provisória. Em 1996 a Assembleia da República aprovou uma amnistia para os presos do Caso FP-25. Tendo avisado já que "haja o que houver nunca mudará de rumo".

Conferencia de Otelo Saraiva de Carvalho. Martes 12 de abril ás 20:30 h.

Rúa do Pracer 19 Vigo

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