Eu sempre me senti fazendo parte dos Lados Baixos do Leste da cidade,
disse recentemente a vanguardista teatral Judith Malina aos seus 80 anos de
idade, enquanto estava sentada no terraço de seu novo apartamento na
Rua Clinton. Muitos andares abaixo, uma meia dúzia de voluntários
estava dando os toques finais aos 100 assentos localizados no subsolo, dando
lugar à nova encarnação de seu bebê, o Living Theatre.
Faltavam somente algumas horas para a noite de abertura de The Brig,
a primeira exibição lá, mas deu tempo para a Sra. Malina
relembrar coisas passadas.
A única vez que vivi por estes lados, foi quando eu passei
30 dias na Casa de Detenção para Mulheres, conta. Este encarceramento,
por recusar a ir para um abrigo durante um treinamento de ataque aéreo
em 1957, foi o segundo de muitos, em uma carreira que fez dela um pilar do movimento
cultural esquerdista. Agora, ela diz, eu realmente me sinto, finalmente,
aonde eu deveria estar."
E isto levou somente meio-século. Em 1947 a Sra. Malina e seu marido,
o pintor Julian Beck (ela ainda se refere a ele pelo seu nome completo, como
um guru, embora eles terem sido casados por aproximadamente 40 anos), fundaram
o Living Theatre, um grupo dedicado aos costumes políticos e artísticos.
Durante duas décadas eles representaram os vanguardistas, os clássicos
ativistas (Gertrude Stein, Lorca, Brecht) e muitos quase-happenings naturalistas.
A interação com a platéia era o traço característico,
confrontações, nudez, sexo no palco ou nos bastidores e freqüentes
intervenções da polícia eram em muito as marcas de uma
boa apresentação, assim como uma aclamação pública.
(Sra. Malina, educada como atriz, disse que muitos dos seus melhores trabalhos
foram realizados quando foi presa).
Mas a companhia foi atormentada com os problemas logísticos e administrativos.
Em 1963, o seu teatro na 14ª Rua foi fechado meio que às pressas
por fraude fiscal. Embora o encargo tivesse finalmente diminuído, as
travessuras do casal durante o processo - nas quais eles trataram como uma oportunidade
para realizar performances anarquistas - deram a eles uma sentença de
prisão por desacato à autoridade de um tribunal.
Suas grandes atividades fizeram deles uma causa célebre, mas não
o suficiente para mantê-los em Nova Iorque. Eles continuaram a se apresentar
e a ensinar em espaços alugados e públicos nos Estados Unidos
e na Europa, porém o grupo não teve em Nova Iorque um teatro por
aproximadamente 15 anos.
O novo, animado e moderno Living Theatre (o prédio foi originalmente
destinado a ser um restaurante da moda) parece se sentir em casa
entre as butiques e os bistrôs da vizinhança. Realmente, de certa
forma, arrumou seus donos.
Com cabelos de bruxa tingidos de preto (no cinema viveu a vovó do primeiro
filme da Família Addams), pesados delineadores de olhos alá
anos 60, com um terninho preto e laranja, um sapatênis preto
e grandes jóias, a Sra. Malina parecia muita mais jovem do que sua verdadeira
idade. Seu companheiro, Hanon Reznikov, de 56 anos, trouxe para ela uma xícara
de café, embora ela dificilmente precisasse disso. Sentada com uma perna
dobrada debaixo de seu corpo e movida pela sua própria paixão,
ela frequentemente pareceu se mover o suficiente para quase cair de sua cadeira
de gramado.
Eu somente preciso achar fontes para toda a energia que pego das coisas
que vejo e escuto em volta de mim, disse. Eu estou muito inspirada
pela geração jovem de hoje. Eles entendem, por exemplo, o equilíbrio
entre arte e política de uma maneira que nós tivemos que lutar
para compreender tudo isto. Acho que estes são bons tempos para o teatro
político.
E ainda se considera uma anarquista ou uma pacifista ou
?
Ainda? devolve a Sra. Malina. Eu só estou começando!
Ainda? Ela rapidamente criticou e continuou: Cada dia começa
com, O quanto posso fazer hoje para seguir em direção ao
M.R.A.N.V.?" Você sabe o que significa M.R.A.N.V.? É a Maravilhosa
Revolução Anarquista Não-Violenta. É para isso que
eu trabalho todos os dias."
O foco do Living Theatre pouco mudou desde os dias em que M.R.A.N.V.
começou a ser uma frase familiar. Escutando o clamor dos necessitados,
como você pode não responder? Perguntou a Sra. Malina. Se
eu fosse um sapateiro, eu tentaria fazer uma maneira para que todo mundo pudesse
ter sapatos, mas eu sou uma artista e eu quero levar esperanças em uma
difícil situação.
Seu método hoje é o mesmo como era então: The Brig,
perfeito drama sobre uma prisão militar, de Kenneth H. Brown, foi um
dos trabalhos mais bem sucedidos do Living Theatre quando primeiramente encenado
em 1963. Dada as ressonâncias da exibição, com informações
sobre Abu Ghraib e Guantánamo, The Brig pareceu uma escolha
natural para a produção inaugural do novo espaço, disse
Malina, que dirige a peça.
Pensei que esta seria uma das apresentações que deveríamos
fazer porque ela encoraja a revolução, disse. É
trágico, trinta anos atrás encenamos esta peça, e ela é
válida até hoje. Não deveria ser mais."
Quatro anos atrás ela decidiu realizar seu sonho de vida de ter um teatro
com um lugar para viver em cima dele. Vendeu o apartamento de oito cômodos
na Avenida West End - onde vivia com Sr. Beck, falecido em 1985, e com seus
dois filhos - e investiu o dinheiro no espaço da Rua Clinton, onde ela
tem um contrato de 20 anos, mas nenhum financiamento.
A recepção do mundo teatral tem sido calorosa. Tony Kushner
nos prometeu uma nova exibição, conta Sr. Reznikov. Jim
Rado, que escreveu Hair, há pouco nos deu uma nova encenação.
E Oskar Eustis do Teatro Público, que está desenvolvendo o The
Brig lá, mandou um buquê de flores com um cartão preto
escrito: Em solidariedade socialista.
Porém resta ver se a solidariedade socialista irá preencher as
cadeiras. A multidão da noite de abertura era em sua maioria composta
de vários amigos com cabelo cinza (e parecidos com rabos de cavalo),
e tinha o ar de uma reunião de esquerda.
A energia da Sra Malina permanecia brilhante e serena. Ela e o Sr. Reznikov
estavam exaltados em achar um prédio com um elevador para embarcá-la
entre o apartamento e o teatro assim ela pode dirigir até
os 105 anos, falou o Sr. Reznikov.
Ela ainda começa o seu dia escrevendo um diário. Duas coleções
de seus escritos foram publicadas até agora uma vai de 1947 até
1957, e a outra, O Desespero Enorme, é uma memória
de seu regresso ao lar americano em 1968. Em seu apartamento de três cômodos,
ainda esparsamente mobiliado, a não ser pelas dúzias de caixas
com etiquetas escritas coisas como teses + textos, a Sra. Molina
senta-se em uma pequena escrivaninha de madeira com uma lâmpada de forma
esverdeada, editando as poesias e trabalhando em cima de um livro sobre o diretor
Erwin Piscator, um progenitor de Brecht. (Ela começou isto em 1945, quando
estudava com Piscator).
Auxiliada por um ajudante, Sra. Malina faz o teatro funcionar juntamente com
o Sr. Reznikov - que assumiu a direção desde quando o Sr. Beck
se foi tendo assim uma relação pessoal e profissional.
Entre seus outros projetos está a preparação da próxima
apresentação do Living Theatre, uma peça de duas mulheres
baseada no romance de Doris Lessing. A Sra. Malina pretende estrelar como atriz
principal.
O que é que ela gosta de fazer para se divertir?
Eu gosto de fazer amor, disse a Sra. Malina. Estudar também.
Não sei fazer muitas coisas além de estudar, fazer amor e dirigir
o teatro.
Quero dizer, adicionou, nós somos grandes bichos do
amor. Pensamos que esta é a resposta: Fazer amor, não guerra."
Tradução: Marcelo Yokoi