Pequena reflexão sobre os casos de violência
contra as mulheres no movimento anarcopunk
O movimento anarcopunk sofre de diversos problemas. E os últimos casos
de violência contra a mulher que vêm acontecendo dentro dele é
apenas um reflexo disto. Em primeiro lugar, já não acredito em
uma organização anarcopunk em âmbito global, mas sim em
organizações individuais ou minigrupos. Este falta de organização
coesa e forte faz com que o movimento se enfraqueça e com isto, dificulta-se
ou minam-se as possibilidades de se buscar e realizar a destruição
deste tipo de coisa em um âmbito maior.
Na avaliação que faço da ocorrência destes casos,
noto que sua motivação se dá por ainda existerem, em um
movimento que já devia ter abolido de uma vez por todas o machismo, práticas
patriarcais e sexistas, que levam sempre a este tipo de ocorrências. Homens
que pensam que as mulheres são propriedades deles, e por serem libertárias,
seus corpos estão à disposição para serem bulinados
na hora que eles quiserem. Afinal, qual a idéia que estes anarcopunks
e punks têm sobre as mulheres?
E porque permite-se que pessoas que praticam tamanha atrocidade, permaneçam
entre libertári@s? Mesmo sabendo do caráter da pessoa, ainda existem
aquel@s que passam a mão e varrem a sujeira para debaixo do tapete, permitindo
que estes homens continuem realizando atividades e fazendo parte de um movimento
que é contra a exploração das mulheres. Porque??
Será que o movimento anarcopunk ainda não atingiu a maturidade
suficiente para saber separar o joio do trigo??? Será que passa tão
imperceptível que não se nota uma atitude autoritária,
machista ou repressora de pessoas que fazem parte do movimento??? Ensaio algumas
respostas: deve ser pelo visual carregado, pela quantidade de gírias
que se fala, pelo número de roles já dados, ou pela quantidade
de substâncias alucinógenas já usadas...
Tornam-se cada vez mais constantes denúncias (que precisam ser investigadas
a fundo) de mulheres que são agredidas, seja fisicamente, moralmente
ou sexualmente, por homens punks (?) e nada é feito de maneira contínua.
Discute-se por um tempo para , logo em seguida, tudo ser esquecido.O caso mais
grave que já aconteceu, ao menos aqui no nordeste, foi o estupro praticado
por André Free, de Natal, contra uma anarquista de Fortaleza. Este fato
não pode cair no esquecimento jamais (como também todos os outros),
mas parece que isto já está acontecendo.
E por favor, não venham dizer que tod@s cometemos erros, porque NADA
justifica a prática de violência contra a mulher, ainda por cima
praticado por alguém que se diga libertário!!!
Durante a assembléia realizada em Natal, entre grupos e indivíduos
do nordeste, para discutir o que o movimento iria fazer em relação
a este caso, algumas pessoas ainda tinham dúvidas se havia acontecido
um estupro ou não mesmo com todo o relato da garota violentada
e do homem que a violentou. Não há dúvidas: quando uma
pessoa é forçada a fazer sexo contra a sua vontade, quando el@
diz NÃO!, e mesmo assim @ outr@, pratica sexo com el@, está configurado
a violência sexual. Um pouco de leitura faz bem...existem cartilhas aos
montes que falam sobre isto...
Recentemente apareceu outro caso, desta vez, em São, Luiz, no Maranhão,
do qual nos chegam muitas informações, e que até o momento
se configura em abuso sexual. E em Fortaleza, um punk que quis saciar
seus desejos, acaricia contra a vontade da garota o corpo dela, enquanto
esta dormia. Esta pergunta já ficou velha, mas não custa perguntar:
Até quando isto irá acontecer, hein?!
Sobrevivemos em um mundo patriarcal/machista e a ocorrência de violência
contra as mulheres acontece a cada 4 segundos, praticada na maioria dos casos,
por homens próximos a elas. O movimento feminista trava uma luta incessante
contra este tipo de coisa, mas ainda não conseguiu erradicá-la,
acabar com a violência que acometem mulheres de todo o mundo. Buscam reformas
e não atacam de frente o problema. Será que o movimento anarcopunk
age da mesma forma?? Em Oaxaca, aconteceram alguns casos de violência
contra a mulher, onde foram registrados estupros, e os homens e mulheres de
lá, realizaram diversas assembléias (vejam bem DIVERSAS!!) com
as pessoas da comunidade e com o agressor, discutindo a fundo através
de grupos de estudo, as causas deste tipo de violência e o que fazer,
já que se tratavam de libertári@s. Em alguns locais, o agressor
foi expulso da comunidade, já em outros foi permitido que ele continuasse,
sendo realizadas diversas reuniões, que resultaram na busca de uma educação
mais livre, reconhecendo que isto acontecia devido a cultura patriarcal ainda
presente na vivência destes homens.
E como se pode erradicar este mal? Penso que é preciso se educar, e educar
de uma maneira libertária, fazendo com que, tod@s nós, homens
e mulheres anarcopunks ou não, quebremos os ranços patriarcais
que ainda existem entre nós e percebermos que@ outr@ não é
um objeto, uma coisa. Como o caos está instalado no movimento anarcopunk,
é preciso que as mulheres procurem se defender, e para isto, precisam
ter auto estima e colocar a boca no trombone, dizer quem a agrediu, e tentar
se defender, aprendendo alguma arte marcial. O wen do é um ótimo
caminho, pois trabalha as duas coisas, auto estima e técnicas de defesa.
Penso que esta é base de tudo.
Outro ponto ao qual o movimento sempre bate é: o que fazer com o agressor?
E acrescento mais um que também é importante: como ajudar a mulher
que foi violentada? Pouc@s se atentam a isto.
Considero importante que comecemos a pensar nestas questões, para que
de repente, não recorramos ao Estado...
Afinal, o que querem e fazem @s anarcopunks???
diciembre 2006
Mabel Dias
libertare@yahoo.com.br