MULHER, DARÁS A LUZ COM DOR!*
Na manhã desta segunda feira a noticia de que uma criança havia
sigo jogada em um ribeirão, em uma cidade de Minas Gerais me chamou a atenção.
Era um bebê, do sexo feminino, de apenas dias de nascida que foi socorrida
por dois rapazes que passavam no local. Após algumas horas, a mãe
do bebê, uma mulher desempregada e que não queria ter a filha, foi
presa pela policia e no momento, encontra-se internada em um hospital
Os noticiários dizem que ela provocou um aborto, tomando chá de
ervas abortivas e remédios para expulsar o bebê. Já outro
diz que ela teve o parto e logo em seguida jogou a criança no ribeirão.
A menina, na hora do resgate, ainda estava com o cordão umbilical. Esta
segunda informação parece ser a mais coerente, pois não é
possível a uma mulher de nove meses de gestação ou oito e
até mesmo seis, provocar o aborto e o bebê nascer perfeitamente bem.
Na realidade, o aborto só acontece quando se é um feto ou um embrião,
e tem semanas de concepção. Fora isto, não é aborto.
Com certeza, haverá seqüelas, mas não por se tratar de aborto.
A criança está em um hospital e seu estado de saúde é
grave, pois assim que nasceu não foi desejada, amada pela mãe e
pelo pai e jogada em um rio sujo. Em todas as casas, com certeza esta mãe
deve estar sendo recriminada pelo ato que praticou. Mas e como será que
ela esta desde o momento que soube que estava grávida? Como esta mulher
está psicologicamente? Como seria sua relação com o companheiro,
sua família e consigo mesma?? A imprensa não pergunta nem deseja
saber, já vai logo dando a noticia e a conclusão que se pode chegar
de acordo com estas informações, é que a mãe que jogou
a filha no rio é uma pessoa cruel, má, perversa. Sem dúvida,
o ato demonstra o tamanho desespero de uma mulher que não queria ser mãe
e sabe-se lá em que motivo isto aconteceu. A imprensa não procura
entrevistar o pai. Diz apenas que ele não sabia que a mulher estava grávida.
Mais uma vez, um caso em que envolve abandono de crianças e a mulher é
logo condenada. Estamos cansad@s de ver isto na mídia. Parece até
que ela fez a filha sozinha e que por não ter se planejado merece ser punida
por isto, principalmente por ter jogado a criança no lixo. Mas e porque
o pai não é responsabilizado também? Porque só a mulher
deve ser a responsável e a culpada por ter engravidado, ou abortado ou
jogado @ filh@ no lixo???
Porque quando a mulher decide abortar, decisão nem sempre fácil
de ser tomada, apenas ela é execrada, quando muitas vezes é o marido,
companheiro ou namorado que sugere que ela aborte?? Este caso reacende,
traz a tona diversas questões, e que a sociedade precisa refletir e a imprensa
parar de trazer a noticia fria, sem reflexões ou fazer julgamento das mulheres,
sem ao menos lhes ouvir profundamente o que aconteceu. Uma destas questões
é o aborto. A mídia precisa se apropiar mais desta questão
fazer debates que mostrem a verdade dos fatos e não aquela história
pré-fabricada nas redações. À criança, torcemos
para que sobreviva! Mas queremos também que esta mãe possa ser cuidada,
como também todas as mulheres possam ter o direito a métodos anticoncepcionais,
que não só o preservativo e a camisinha, que conheça o seu
corpo e que tenha a autonomia de decidir sobre ele, dizendo quando e com quem
quer ter seus filh@s. E até decidindo sobre se quer tê-los ou não.
Que tenha direito a saúde, a uma rede pública de serviços
completa, seja ela de que classe social for.
Um filh@ deve ser desejado, e não uma imposição. No último
dia 28, celebrou-se o Dia pela Descriminalização do aborto na América
Latina e no Caribe. Estima-se que na Paraíba são realizados cerca
de 1000 abortos clandestinos. O Ministério da Saúde aponta o aborto
inseguro como um problema de saúde pública, que mata mulheres e
precisa ser debatido, sem moral religiosa e sem tabus, pela sociedade. Não
se pode criminalizar mulheres que praticam o aborto, mas sim ampará-las
e dar-lhes apoio em todos os sentidos. É o que esta mãe e este bebê
estão precisando agora. Mais do que nunca. Fazer com que as crianças
sejam amadas, e desejadas e dizer que as mulheres não engravidam sozinhas.
Cadê os homens nesta discussão?
*trecho da Bíblia em que condena às mulheres a sofrer durante o
parto, sentindo dores, por ter tocado na árvore do conhecimento e ter desafiado
a Deus.
Mabel Dias
Grupo Wendo JPA
Coletivo Insubmissas