Destruindo o patriarcado na busca de uma sociedade anarquista
Desde a infância há imposição da sociedade, da família
e da religião de como deve se comportar cada um dos gêneros. As cores
que devem usar; do que devem gostar; como devem brincar. Para os meninos, o azul,
o carro. Para as meninas, o rosa, o fogãozinho. Deste modo, se determina
o espaço público para os homens e o espaço privado para as
mulheres.
Esses papéis são puramente culturais, nada há de natural
como demonstram pesquisas no ramo da psicologia e da antropologia. Essa cultura
patriarcal oprime as mulheres e limita os homens.
Diversos fatores exteriorizam o patriarcado (dominação do gênero
masculino sobre o feminino) como, por exemplo, o mito de Adão e Eva, que
legitima a submissão feminina.
De acordo com José Carlos Leal, no mito do Gênesis, a mulher não
estava nos planos de deus, foi criada apenas como decorrência das necessidades
do homem. Diz o texto: não é bom que o homem esteja só,
façamo-lhes um adjuntório (ajuda) semelhante a ele. Outra
parte importante presente no Gênesis é quando a mulher comete o pecado
original (quando Eva oferece do fruto da árvore proibida para Adão),
sendo culpada por todos os males da humanidade, assinando assim sua
sentença de submissão. Mas, e porque a serpente tenta Eva e não
Adão? É interessante o argumento usado por Adão para se justificar
com deus: A mulher que me destes por companheira, deu-me do fruto da árvore
e eu comi. Eva desestabilizou a relação do homem com deus,
portanto é um ser destrutivo e merece ser punida com a submissão
ao homem. Será assim até o fim dos tempos?
Até hoje, século XXI, apesar das descobertas cientificas que derrubaram
essa lenda ainda há nela uma forte crença, alimentada pela classe
dominante, de modo utilitário para seus propósitos.
Com a passagem da sociedade nômade para a civil, o homem começou
a limitar terrenos, cercando-os determinando assim o que era seu. Começa
aí a se formar a propriedade privada. Nas sociedades nômades, as
relações entre homens e mulheres eram poligâmicas. Com o advento
da propriedade privada, esta relação passa a ser monogâmica
para que o homem soubesse o que lhe pertencia, sendo assim, além
das terras, casa e animais, as mulheres também passaram a ser propriedade.
Atualmente, com a burguesia e o modo da economia capitalista, a figura feminina
continua a ser colocada em uma situação de passividade. As mulheres
executam o mesmo trabalho que os homens e recebem menos e o trabalho das donas-de-casa
não é valorizado. Aos homens também são reservados
os melhores empregos, mesmo que estes tenham grau de escolaridade menor.
Isso não significa dizer que pretendemos concorrer com os homens por melhores
empregos, salários nem cargos de poder, pois não acabariam com a
situação de opressão, apenas se inverteriam os papéis,
como sugerem algumas feministas.
Queremos demonstrar a desigualdade entre os sexos, causada pela sociedade burguesa
capitalista. O patriarcado castra a liberdade sexual tanto dos homens quanto das
mulheres; eles sofrem a pressão da poligamia mecânica enquanto elas,
a repressão dos desejos. Homens e mulheres que se relacionam com pessoas
do mesmo sexo ficam excluídas do mercado de trabalho e da sociedade como
um todo, pois sua orientação sexual quebra o padrão estabelecido.
Outro modo de se utilizar os papéis de gênero pelo capitalismo é
a exploração da imagem da mulher, sendo literalmente vendida como
objeto sexual através da mídia. É cada vez maior o número
de grupos de forró, axé music e funk que exploram a
figura feminina de uma maneira aviltante. A mídia (TV, rádio, jornal,
entre outras) contribui de maneira significativa com toda a difusão deste
tipo de cultura de massa, fazendo com que se mantenha a discriminação
em relação à mulher e, consequentemente a conservação
do sistema de gênero.
Estamos em pleno século XXI, mas se formos fazer uma pesquisa constataremos
que o número de mulheres que ainda apanham dos maridos/namorados/companheiros
e se submetem as vontades deles é alarmante. Na Paraíba, por exemplo,
soubemos de um caso de uma mulher que para não ser mal vista
na cidade onde mora, pois já não era mais virgem, iria se submeter
a uma cirurgia de reconstituição do hímen para que no dia
que fosse ter relações com o marido, ele não notasse. Ainda
se mata por ciúmes; a mulher é vista como propriedade dos maridos;
em relação aos homens, a situação não é
diferente: grande parte das mulheres que se encontram encarceradas, estão
por terem matado os maridos depois de saberem que eles mantinham um outro relacionamento.
Porém, este último caso é bem mais raro de acontecer.
Já no movimento anarcopunk, que completou recentemente 30 anos de existência,
as discussões sobre gênero são bastante recentes e incipientes,
como também no movimento anarquista. Com as anarcofeministas, antigas e
atuais, é que este panorama começou a mudar, pois elas formaram
grupos de discussão e atuação, passando assim a questionar
a relação homem/mulher dentro do meio punk. Tal impulso se deu porque
as mulheres anarcopunks e anarquistas perceberam que, dentro do próprio
movimento, os papéis de gênero eram mantidos, tanto por mulheres
quanto por homens. Mesmo @s punks quebrando todos os padrões, este ainda
continuava a existir.
Anarquistas como Emma Goldam, Maria Lacerda de Moura, a libertária Flora
Tristán, entre outras, começaram a colocar em discussão,
seja de maneira individual ou coletiva, no movimento anarquista dos séculos
XIX/XX, a opressão que as mulheres sofriam na recente sociedade industrial,
brasileira e européia. Os homens libertários, como hoje, não
davam tanta importância a exploração pela qual as mulheres
passavam nas fábricas (para onde levavam suas/seus filh@s) nem em casa.
E as próprias mulheres não tinham espaço para colocar o que
sofriam. Só a partir da inserção das mulheres dentro do movimento
anarquista e em outros espaços de discussão, é que este quadro
começou a mudar.
Assim como a partir da criação de grupos anarcofeministas e da organização
das mulheres no mesmo. Não é à toa que foram as mulheres
que trouxeram à tona a discussão sobre o sistema de gênero;
pois são elas que sentem as dificuldades quando saem às ruas; quando
vão parir; quando decidem não se casar; quando vão falar
em público; quando decidem amar outras mulheres.
Um fato que ilustra bem o desinteresse dos anarcopunks/anarquistas em discutir
sobre gênero foi quando aconteceu a divisão dos temas no 9ª
Encontro AnarcoPunk (realizado em João Pessoa , em 2005) para serem colocados
nesta revista*. Apenas mulheres se interessaram para elaborar este texto.
Casos de violência vêm acontecendo com freqüência dentro
do movimento anarcopunk e o pior é que não se é dada a devida
atenção a eles. Mulheres libertárias são agredidas
por aqueles que escolheram para serem seus companheiros e que assumem uma postura
anarcopunk de combate a violência contra a mulher, cantando em suas bandas,
escrevendo em seus zines ou berrando em seus discursos. Só que na prática...
A construção do gênero masculino também é dolorosa.
Mas não há por parte dos homens nenhuma expressão de descontentamento
em relação aos papéis que a sociedade lhes destinou. Então,
será que os homens gozam de privilégios? Será que tais papéis
não lhes trazem mais benefícios que malefícios? Podemos dizer
que a opressão em relação aos homens se dá de maneira
sutil, por isso não há uma percepção tão clara
da opressão que sofrem, mas mesmo assim porque eles não se manifestam?
Alguns têm se organizado e participado ativamente de grupos de mulheres/feministas/anarcofeministas
e de círculos onde se debate o sistema de gênero e a violência
contra a mulher. Mas, a grande maioria continua inerte!
Apesar de já fazer parte do cotidiano do movimento anarcopunk e anarquista,
o anarcofeminismo ainda causa polêmica. Boa parte d@s anarquistas/anarcopunks
diz que o anarcofeminismo é desnecessário já que o anarquismo
engloba a luta de tod@s @s oprimid@s; outr@s dizem que é o machismo
às avessas e que não faz sentido existir, entre tantas outras
colocações.
Na realidade, por falta de interesse das pessoas em estudar sobre o assunto e
de materiais que falem sobre o tema é que existem tantas colocações,
que geram mais confusão do que entendimentos. O anarcofeminismo não
é nada disso que se coloca, mas sim a luta das mulheres anarquistas e que,
consequentemente, abraça as causas que oprimem o ser masculino. Diferente
de algumas feministas, as anarcofeministas não vêm a libertação
da mulher isolada da dos homens. O anarcofeminismo não é segregacionista
quando defende espaços para discussão apenas com mulheres, muitas
vezes isto acontece de uma maneira tão natural (vejam o exemplo da elaboração
deste texto). Há interesse dos homens em discutir, só para citar
um tema, sobre gênero? Há interesse dos homens em discutir sobre
libertação feminina?
Não há motivo para pânico quando as mulheres se reúnem.
É apenas um meio encontrado para a organização feminina,
tornando-as assim mais fortes e unidas, visto que o patriarcado fragiliza e coloca
as mulheres como rivais e não aliadas.
Os homens também devem se reunir entre si e com as mulheres e expressar
esta opressão que eles dizem afligi-los, pois só junt@s, mulheres
e homens livres poderão destruir o sistema de gênero e construir
uma sociedade igualitária de verdade.
*Este texto seria colocado na revista da Federação AnarcoPunk, proposta
durante o 9ª ENAP, mas infelizmente o material não teve êxito.
Não querendo perder este texto, que foi produzido com muito esforço,
estamos disponibilizando-o a vocês!
Lilá, Mabel, Tatiana e Déborah
João Pessoa, 11 de maio de 2006