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Um
sonho de deus |
Dom Tomás Balduíno
A minha apresentação aqui vai ser diferente. Depois de um dia dando trabalho
ao cérebro e ao coração a propósito desta pergunta intrigante, por qué o socialismo,
pensei em fazer com vocês uma meditação, a partir da Bíblia, da Palavra
de Deus, respondendo também à questão: por que o socialismo? A resposta aí é
a seguinte: Porque é também um sonho de Deus.
E isto transparece na Bíblia. Vou ler apenas uns trechos mais significativos.
Tudo começa com a surpreendente revelação do povo de Deus. Assim falou Deus
a Abraão: «Abraão, olha as estrelas no céu e conta-as, se tu podes».
Como, naquela idade, contar tantas estrelas?... «Pois bem, -disse Deus-
eu te darei uma posteridade mais nume-rosa do que as estrelas do céu e do
que as areias das praias do mar.» (Gen 22,17). Este povo, porém, acabou
sendo um povo de escravos. Grande parte dele perdera a própria língua, a própria
cultura. Trabalhou duro na construção das pirâmides do Faraó.
Foi aí que Moisés, um joão ninguém, que andava pastoreando ovelhas no deserto,
teve uma revelação, através de uma experiência mística. Moisés viu com seus
olhos e ouviu com seus ouvidos Javé dizendo: «Eu vi,eu vi a miséria do meu
povo que está no Egito. Ouvi seu clamor por causa dos seus opressores, pois
eu conheço suas angustias. Por isso desci a fim de libertá-lo das mãos dos egípcios
e para fazê-lo subir daquela terra para uma terra boa e vasta, terra que mana
leite e mel.» (Ex 3, 7-8) Deus assume aquele povo, procura libertá- lo e
levá-lo para uma terra de fartura. Vê-se aqui a proposta de um sujeito coletivo,
com sua identidade, com seu jeito de ser e, além disso articulado num caminho
de libertação, em confronto com seus dominadores e opressores. Este povo torna-se
um símbolo de comunhão. Esta terra, onde corre o leito em mel, é um tipo de
Eucaristia. O povo se regozija vivendo a sua maior dignidade no encontro em
torno da mesa.
O que Moises fez praticamente foi organizar este povo. O texto bíblico assinala
que ele não estava conseguindo realizar esta tarefa sozinho. Surge, então, a
necessidade da organização.
Javé diz a Moisés: «Reune 70 anciãos de Israel, e escribas do povo. Tu os
levarás à tenda da reunião onde permanecerão contigo. Eu tomarei do espírito
que está em ti e colocarei neles. Assim, levarão contigo a carga deste povo
e tu não a levarás mais sozinho.» (Ex 24,1) Não era, pois um bando de gente
andando ao léu. Era gente organizada, dotada de um decálogo, com leis bem precisas
que envolviam toda a vida deles. Havia, pois, toda uma articulação social. Quando
o espírito pousou sobre os anciãos eles profetizaram. Eis aí um povo com o qual
Deus se relaciona na forma de respeito, de aliança, de comunhão. Deus atende
até diante da teimosia do povo. Chama a atenção dele, mas atende.
Então, disse Deus a Moises: «Eis que faço uma aliança. Farei diante do teu
povo maravilhas como não se fizeram em toda as terras nem em nação alguma. Todo
este povo no meio do qual estas verá a obra temível que vou fazer.» (Dt
7,7). Esta surpreendente novidade que não se conhecia lugar nenhum, era um povo
vivendo simplesmente a fraternidade, a comunhão, alimentados por Deus. Eram
todos eram iguais entre si, sem descriminação. Comparada com este povo a democracia
grega era puramente formal, representativa. Havia a elite dos cidadãos. O restante
da população era do trabalho servil, e do trabalho escravo. Não tinha direito
nenhum. Já este outro povo foi congregado por Deus que caminhou com eles. Na
profecia de Ezequiel a respeito da aliança, Deus diz:
«Eu lhes darei um outro coração, porei no seu intimo um espírito novo, removerei
do seu corpo o coração de pedra, darei um coração de carne afim de que andem
de acordo com os meus estatutos e guardem as minhas normas e as cumpram. Então,
eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus.» (Ez 11,19). Esta idéia de
povo de Deus aparece na revelação que Jesus fez do que ele chamou de Reino de
Deus. São praticamente sinônimos. Não é, porém, mesma coisa que Império. Reino
de Deus, no ensinamento de Jesus, é algo pequenino, do tamanho de uma semente,
de um pouco de fermento.
Houve um retrocesso no povo de Israel quando optou pela realeza, que copiou
a opressão dos demais povos. Aí vieram os profetas que brigaram muito. Os profetas
foram chamados para corrigir as distorções introduzidas pela imitação do mais
forte, do mais poderoso. O profeta Miquéias dizia: «Ouçam chefes da casa
de Jacó, vocês entortam o que é reto, edificam o Sião com sangue e Jerusalém
com injustiça. Os chefes de vocês julgam por suborno. Seus sacerdotes ensinam
por salário e seus profetas vaticinam por dinheiro! Por isso, por culpa de vocês
Sião será arada como um campo. Jerusalém se tornará um lugar de ruínas e a montanha
do templo um cerro de brenhas.» (Mq 3, 9-11).
Tudo aqui é simbolo. Este povo é um povo simbólico. Os os diversos elementos
que o integram estão nesta mesma linha. Por exemplo, o maná, o alimento usado
na caminhada pelo deserto. O maná é um elemento importante de igualdade, de
comunhão, o oposto da acumulação. «O que é isto?» perguntou o povo a
Moisés quando viu aquela coisinha caindo no solo. Moisés respondeu: «Isto
é o pão que Javé lhes dará para o sustento de vocês. Eis que Javé lhes ordena:
cada um colha dele o quanto baste para comer, um gomor por pessoa. E apanharam,
evidentemente, uns mais e outros menos. Quando foram medir no gomor, nem aquele
que tinha juntado mais tinha maior quantidade, nem aquele que tinha colhido
menos encontrou menos.» (Cf. Ex 16,17). Esta simbologia é de suma impor-tância
para compreender a revelação do lugar da mesa nesta sociedade. O profeta Sofonias
disse: «Procurem a Javé vocês todos pobres da terra que realizam a sua ordem.
Procurem a justiça, procurem a pobreza.» (Sf 2,3).
Em Jesus, aparece algo forte, um mundo totalmente novo. É o Jubileu! Na pequenina
Nazaré, ele se apresentou como o Ungido do Senhor. É um outro Moisés, porém
numa perspectiva planetária, universal. «O Espírito do Senhor está sobre
mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres, me enviou para proclamar
a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade
aos oprimidos e para proclamar um ano de graça ao Senhor.» (Lc 4, 18). Então,
a conseqüência disto, é a surpreendente revelação contida bem aventuranças.
«Bem aventurados os pobres, porque deles é o reino de Deus, os que têm fome,
porque serão saciados, os que choram porque hão de rir.» (Cf. Lc 6,20-23).
Neste mesmo Evangelho Lucas põe na boca de Jesus também o oposto das
bem aventuranças: «Ai de vocês ricos». Um parêntesis. O Paraguai teve
um governante genial, Francia, chamado «El Supremo» , que levantou aquela
nação guarani a um eplendor tal que suscitou os ciúmes e a ira da Inglaterra.
Esta não tolerou que aquele país de índios, daquele tamaninho, concorresse com
ela lançando navios no Atlântico com a tecnologia mais avançada daquele tampo.
Daí aquela guerra suja feita com nossas mãos coloniais. Pois bem, Francia foi
o precursor da opção preferencial pelos pobres, introduzida na Igreja após o
Concílio Vaticano II. Com a diferença, porém, que ele a completava com a opção
correspondente contra os ricos. Foi um tempo em que não se viam ladrões naquele
país. No Evangelho de Lucas aparece esta forma de opção. Com efeito,
depois das bem aventuranças para os pobres, vêm as maldições para os ricos.
«Ai de vocês ricos, porque já têm a sua consolação, ai de vocês saciados,
porque terão fome. Ai de vocês que riem, porque estarão no luto e nas lágrimas.»
(Lc 6, 24-26). E há aindas as advertências contra a da idolatria do dinheiro.
«Ninguém pode servir a dois senhores, porque há de agradar um, desagradar
o outro, favorecer um, desfavo-recer o outro. Vocês não podem servir a Deus
e ao dinheiro.» (Mt 6,24). Isto é fundamental na leitura evangélica. é uma
oposição irreconciliável entre dois deuses. Um Deus, do qual Jesus fala, é o
seu próprio Pai, o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó. É o pai que manda seu
filho dar a vida pelo seu povo. Ao passo que o outro deus é mais um ídolo, que,
no Evangelho, é identificado com o que conhecemos como mercado, capital, dinheiro,
é aquele que se alimenta de vítimas, devora seus adoradores. Ao passo que o
verdadeiro Deus dá a sua vida por todos. No Templo de Jerusalém, Jesus fez aquela
conhecida cena subversiva de derrubar mesas, de chicotear o pessoal, de chutar
caixas de moedas que se esparramaram pelo chão. Por este gesto ou sinal ele
não não estava defendendo ou purificando o edifício sagrado, mas sim o seu significado,
a saber, a pessoa humana, o homem e a mulher. O templo é ele mesmo e cada um
de nós. O que provocou a violenta indignação de Jesus foi a constatação da exploração
das pessoas, a prostituição, a marginalização, o massacre. Daí a sua reação
violenta.
Finalmente, o Reino de Deus. Isto se ilumina, no ensino de Jesus, pela nova
pratica da mesa. É uma reviravolta total de tudo aquilo que existe a respeito
na sociedade tida por normal, a sociedade do bem estar e do bem pensante. Tratase
da mesa rodeada e composta, na maioria dos comensais, por gente marginal, coxos,
aleijados, cegos, doentes, maltrapilhos, povo da rua. Ele juntou todos estes
e promoveu o novo banquete, o banquete da partilha, da dignidade e da festa.
No Evanvelho de Lucas, 24,13, há uma tocante narrativa de dois discípulos
caminhando tristes na direção de um povoado, chamado Emaús. Era o terceiro dia
depois da morte de Jesus. Jesus caminhou com eles sem ser reconhecido. O importante
foi a forma como o re-conheceram: foi em torno da mesa e diante do fato de Jesus
partir o pão. A partilha foi a chave do reconhecimento do Senhor. Foi na partilha
que os companheiros tiveram a luminosa intuição de a sua identidade.
Um último ponto desta nossa meditação, a globalização. Isto entra necessariamente
nesta temática re-ligiosa, no sentido de envolver a universalidade sob a forma
de mundialização, de planetarização. Eis a referência precisa: Segundo o Evangelho,
Jesus se insurgia vigorosamente contra a maneira sectária de viver a religião.
Até dizia aos judeus.
«Vocês saem ai pelo mundo a fora, arrebanhando adeptos para a religião de
vocês, e no final fazem deles duas vezes mais merecedores da geena do que vocês
mesmos».
(Mt, 23,15) Isto significa simplemente a total abertura para o outro, para o
diferente e com relação a todos os homens e mulheres, com relação também à criação
toda. Esta é a revelação, a partir da fé, do que é absoluto e do que é relativo
na nossa sociedade e na própria Igreja, levandonos à valorização do outro, à
tolerância pelas diferenças. Em termos religiosos chamamos isto de ecumenismo
que envolve as Igrejas cristãs, mas só é fiel ao Evangelho se assume
também o macroecumenismo que diz respeito a todas as religiões incluindo as
religiões indígenas, enfim, as religiões de todos os povos. Esta mensagem esclarece
en profundidade um caminho que só pode ser de socialismo. Todos os profetas
apontaram para esta inspiração que atinge sua plenitude na pessoa e no ensinamento
de Jesus. Isto confere com a visão e prática de sabedoria dos povos mais antigos
e amis autênticos da Terra. A propósito de todos os que indagaram, reflitiram
e trabalham no presente encontro sobre o socialismo eu lhes aplicaria aquela
palavra de Jesus a um de seus interlocutores: «Vocês não estão longe do Reino
de Deus».